Tomboy



Dando a Cara à Tapa

Espécie de versão mirim de Meninos Não Choram (EUA, 1999), Tomboy (França, 2011) impressiona pelo destemor com que assume riscos. Ao abordar a espinhosa questão da identidade sexual e troca de gênero ainda na infância, a diretora e roteirista Céline Sciamma dá a cara à tapa, mas sai vitoriosa do desafio, tendo em vista que a naturalidade e a sensibilidade com que trata o assunto não deixam margens a qualquer polêmica vazia.
Dentro deste contexto, mostra-se de enorme importância a qualidade do trabalho das crianças que compõem o elenco. Com efeito, tamanho é o despojamento de suas atuações que a câmera de Sciamma se torna mera observadora da dinâmica de interação entre aquelas ao invés de ponto de referência para enquadramento de encenações. Neste sentido, salta aos olhos o talento de Zoé Héran que enquanto protagonista assume a responsabilidade de fazer com que toda a obra funcione, peso esse que parece não ter exercido nenhuma diferença, considerando que o que se vê na tela é uma composição dramática digna das atrizes mais consagradas. Com um olhar que mistura angústia, aflição e coragem, a pequena atriz se aproveita também de sua compleição física para convencer de uma forma tal que muitos podem até pensar se tratar de um garoto quem está ali interpretando.
Vale dizer que o texto conciso¹ de Céline Sciamma apresenta soluções que surpreendem, sugestões que pairam no ar e lacunas sem preenchimento, o que, por óbvio, se assemelha a vida real de conclusões e desfechos jamais exatos. Por isso, resulta convincente a tranquilidade da irmã caçula perante as escolhas da primogênita, assim como soa verossímil o choque da mãe ante a inevitável descoberta e a forma velada com que o pai lida com o assunto e dispensa tratamento um tanto masculinizado a pré-adolescente.
Desinteressado em julgar seus personagens, o longa-metragem, na verdade, busca manter em evidência a forma díspar com que a sexualidade da garota é tratada dentro da própria casa como amostra das muitas atribulações e preconceitos que serão experimentados durante toda uma trajetória por quem decide ir de encontro aquilo que é naturalmente esperado. Um belo filme.
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1.Nesta toada, Luiz Zanin escreve: “Sensível e despojado, Tomboy diz tudo o que é preciso sobre o assunto, sem desperdiçar uma única imagem e sem jogar qualquer palavra fora. O espectador, cansado de filmes empetecados e sem alma, agradece (FONTE: http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/tomboy/ Acesso em 17.9.12).

FICHA TÉCNICA                                                                                                               
Direção e Roteiro: Céline Sciamma
Produção: Bénédicte Couvreur
Elenco: Zoé Héran, Malonn Lévana, Jeanne Disson, Sophie Cattani, Mathieu Demy, Yohan Vero, Noah Vero, Cheyenne Lainé, Rayan Boubekri, Christel Baras
Fotografia: Crystel Fournier                   Trilha Sonora: Jean-Baptiste de Laubier
Estreia Mundial: 20.04.2011                   Estreia Brasil: 20.01.2012
Duração: 82 min.

Comentários

  1. Ótimo texto Dario, "Tomboy" é realmente um belo filme, se ainda não conheces, recomendo "Lírios D'Água" primeiro filme de Céline Sciamma! ;)

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