EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Vou Rifar Meu Coração



Desconexo

Uma palavra resume Vou Rifar Meu Coração (Brasil, 2012): desconexo. O trabalho de Ana Rieper, neste sentido, falha de modo inconteste ao não concatenar a relação a que se propunha, qual seja o contexto de muitas das histórias contadas na música brega em meio a realidade de sentimentos experimentada tanto pelo grande público quanto por artistas não representativos de uma elite.
Desse modo, depoimentos de músicos pouco se conectam as falas de populares, o que ilustra em última instância o abismo entre a pretensão existente e o resultado obtido. Não fosse o bastante, a forma ineficaz com que a música é utilizada faz desta última nada mais que um simples acompanhamento melódico a histórias cujos relatos acabam por expor ao ridículo seus protagonistas.
Ao isolar uma determinada manifestação artística a uma classe social Ana Rieper não esconde sua posição enquanto “outro de classe”, cometendo, desta feita, o equívoco de tratar “seus entrevistados pobres de modo fetichista [...], sem estabelecer real diálogo”¹. Dentro deste contexto, a montagem aleatória de entrevistas que pouco somam ou contribuem ao processo de aprendizado da “essência de uma temática ou de uma realidade fixa preexistente”² denotam a crise do “sistema” de entrevista alertada por Jean-Claude Bernardet, para quem o recurso, tal qual percebido no filme em análise, se tornou um cacoete incapaz de promover o “enriquecimento da dramaturgia e das estratégias narrativas” ³.
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1-2.Neste sentido, Cláudia Mesquita e Consuelo Lins in Filmar o real: sobre o documentário brasileiro contemporâneo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p.30 e 56.
3.    A Entrevista in Cineastas e Imagens do Povo. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Ana Rieper
Produção: Suzana Amado
Fotografia: Manuel João Águas
Trilha Sonora: Aurélio Dias
Estreia: 03.08.2012
Duração: 76 min.

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