EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 25 de setembro de 2012

Ted



Sexo, Drogas, Rock and Roll e Pelúcia

Ted (EUA, 2012) é, definitivamente, um filme para não ser levado a sério, constatação essa que, aliás, representa seu grande mérito. Lamentavelmente, porém, o estúdio por trás da obra deve ter temido a reação do público perante um urso de pelúcia que – ao contrário da candura demonstrada por um bichinho semelhante em Inteligência Artificial (EUA, 2001) – curte cocaína, cerveja e sexo pago, o que, por certo, explica o tom de culpa que a comédia adota a partir de sua segunda metade.
Ok, fazer a personalidade do brinquedo evoluir conforme o passar das décadas a ponto de torná-lo uma ex-celebridade envelhecida e rebelde fora uma grande sacada do roteiro; por outro lado, levá-lo a experimentar dilemas de gente grande e trajetórias de redenção típicas dos anti-heróis soa como uma tentativa boba de emprestar moralidade a história, o que, convenhamos, revela desnecessária insegurança dos produtores, uma vez que o barato da obra advém justamente do caráter politicamente incorreto de seu protagonista.
Neste sentido, Teddy não se parece com um Alf (EUA, 1986) nem com um Howard, The Duck (EUA, 1986), mas sim com a inacreditavelmente desbocada Hit Girl de Kick Ass (EUA, 2010)¹, pois tal qual ela, o ursinho é um boca suja que não esconde sua obscenidade nem se esquiva de distribuir sopapos quando provocado, ‘virtudes’ que, vale dizer, o colocam imediatamente na galeria dos principais personagens criados através da computação gráfica.
Deliciosamente surreal, Ted flerta também com a cultura nerd ao reverenciar o hoje tosco longa-metragem do super herói Flash Gordon, aventura embalada ao som do grupo Queen e estrelada pelo canastrão Sam J. Jones² que fez a alegria da criançada no início dos anos 80. Não a toa, a interrupção desse universo pop, saudosista e irresponsável por aquela toada sisuda já comentada anteriormente gera uma óbvia conclusão: ser adulto é chato pra c...
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1.Comparação, ressalte-se, que busca fugir da óbvia semelhança do filme e de seu protagonista para com o humor dos seriados animados “Family Guy” e “American Dad” também criados pelo diretor e roteirista Seth MacFarlane.
2.Não deixa de ser irônico, dentro deste contexto, que Sam J. Jones divida a tela com aquele que é talvez hoje o maior canastrão do cinema hollywoodiano: Mark Wahlberg. Se esse é o caso de uma piada pré-concebida não há como saber; de qualquer forma, inevitável é especular o quanto a produção cresceria se estrelada por um ator mais competente e mais digno de fazer parceria com um personagem tão incrível quanto Teddy.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Seth MacFarlane
Produção: Jason Clark, John Jacobs, Seth MacFarlane, Scott Stuber, Wellesley Wild
Roteiro: Seth MacFarlane, Alec Sulkin, Wellesley Wild
Elenco: Mila Kunis, Mark Wahlberg, Giovanni Ribisi, Jessica Stroup, Patrick Warburton, Seth MacFarlane, Joel McHale, Laura Vandervoort, Melissa Ordway, Aedin Mincks, Ralph Garman, Ginger Gonzaga, Alexandra East, Sam J. Jones
Fotografia: Michael Barrett                 Trilha Sonora: Walter Murphy
Duração: 106 min.

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