EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 9 de dezembro de 2012

Cidadão Kane



Rosebud: A Metonímia que Nunca Foi




Rosebud me parece tão bom quanto o ‘abre-te Sésamo’ de Ali Babᔹ


Cidadão Kane (EUA, 1941) tem sua narrativa deflagrada a partir da investigação acerca do significado de Rosebud, última palavra proferida por Charles Foster Kane em seu leito de morte. A curiosidade jornalística de alguns, nesse sentido, gera especulações das mais triviais: seria, esse, por exemplo, o nome de algum arrebatador amor do passado? Na expectativa de que uma única junção de vogais e consoantes seja capaz de representar toda uma vida, um repórter se lança numa atividade detetivesca cuja chance de fracasso é grande, considerando que aquela pode ser uma mera palavra que não comporta qualquer atrativo em seu bojo².
Inspirado na história do magnata das comunicações William Randolph Hearst, o roteiro de Orson Welles e Herman J. Mankiewicz mescla as realidades do biografado e do cineasta com absoluta criatividade³ - razão pela qual, não a toa., o start da trama a partir de uma misteriosa palavra se impõe como um dos muitos artifícios eternizados pelo filme na memória do público.   
 Dentro deste contexto, a pesquisa iniciada por um jornalista em torno do sentido de Rosebud faz com que os fatos sejam extraídos de narradores delegados cujos relatos são transformados em imagens e sons pela via da transsemiotização – um conceito tornado fundamental aos trabalhos de análise fílmica.

Se lembrarmos que Rosebud era na verdade o nome com que William Hearst batizara a genitália de sua amante a atriz Marion Davies, outra constatação não sobrará: além de um engenhoso truque narrativo, a palavra também era uma inegável piada de Welles que não hesitava em demonstrar sua ousadia perante um inimigo que tão logo seria anunciado, qual seja o próprio Hearst que através do poder midiático de seus jornais passaria a pressionar Hollywood com chantagens das mais diversas para que o longa-metragem não visse a luz do dia ou, nesse caso, o escuro do cinema.
                     Acima das inovações narrativas e técnicas - no que se destacam o eficiente manejo de planos-sequência e da profundidade de campo, além do recorrente uso da câmera em contra-plongée⁴ ora para engrandecer os personagens ora para mostrá-los sufocados por ambientes fechados⁵ - e do ácido olhar jogado sobre o modus operandi da imprensa norte-americana, Cidadão Kane é, sobretudo, a demonstração de que a história de vida de um ser humano é um legado por demais rico para ser compreendido de maneira sintética após a apuração de duas ou três versões dos fatos. Os altos e baixos da carreira de Orson Welles, afinal, são prova disso.
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1.     TRUFFAUT, François. Welles e Bazin in BAZIN, Andre. Orson Welles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. p. 24.
2.    Segundo Orson Welles: “a verdade de Kane só pode ser deduzida, como aliás qualquer verdade sobre um indivíduo, pela soma de tudo o que foi dito sobre ele [...] Tudo depende de quem está falando. [Kane] Nunca é visto através do olhar objetivo de um autor. A meta do filme reside, por sinal, mais na apresentação do problema que em sua solução” (trecho apresentado por Andre Bazin in Orson Weles. p. 74).
3.    François Truffaut assim já escreveu: “fica bem claro que as emoções sentidas por Welles na sua mocidade formam a trama de Cidadão Kane, ainda que, como afirma Pauline Kael, o tema e o personagem lhe tenham sido fornecidos pelo co-roteirista Herman J. Mankiewicz (que seria ele próprio mais ou menos representado no filme pelo personagem do crítico dramático, colega de escola de Kane, Jedediah Leland, interpretado por Joseph Cotten)” – Op. Cit. p. 18-9. Neste diapasão, recomenda-se, para fins de aprofundamento no assunto, o documentário A Batalha por Cidadão Kane (The Battle Over Citizen Kane, EUA, 1996).
4.   “Contra-plongée: A câmera filma o objeto de baixo para cima, ficando a objetiva abaixo do nível normal do olhar. Geralmente dá uma impressão de superioridade, exaltação, triunfo, pois faz "crescer" o/a ator/atriz” (FONTE: http://www.fafich.ufmg.br/~labor/cursocinema/pageoutorder/08contraplongee.html. Acesso em 09.12.12).

5.   Considerando que No Tempo das Diligências, de John Ford “mostrava sistematicamente os tetos todas as vezes que os personagens deixavam a diligência para entrar num albergue” (François Truffaut. Op. Cit. p. 26), Cidadão Kane não há de ser considerado como o primeiro filme que incluiu nos enquadramentos das cenas os tetos dos ambientes – antes não costumavam ser por conta dos problemas de iluminação que essa opção acarretava, daí porque os cenários montados em estúdios costumavam não ter teto – é pouco provável que em outra realização cinematográfica essa fração dos cômodos por onde transitam os personagens tenha obtido tamanha importância visual.




Ficha Técnica
Título Original: Citizen Kane
Direção: Orson Welles
Produção: Orson Welles, Richard Baer e George Schaefer
Roteiro: Herman J. Mankiewicz, Orson Welles
Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten, Everett Sloane, Agens Moorehead, Ray Collins, George Coulouris.
Fotografia: Gregg Toland
Trilha Sonora: Bernard Herrmann, Charlie Barnet e Pepe Guízar
Duração: 119 min.

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