EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 22 de dezembro de 2012

Janela Indiscreta



Influência Eterna

Ao discorrer sobre Janela Indiscreta (EUA, 1954) Joshua Klein descreve o título como um “estudo fascinante sobre a obsessão e o voyeurisno, Janela Indiscreta combina um elenco perfeito, um roteiro perfeito e principalmente um cenário perfeito para um filme - que é ainda melhor do que a soma de suas partes”¹. Ante o exposto, vale a pena dissecar o pensamento citado para entender o porquê de tanto elogios.

  1. Fascinante estudo sobre a obsessão e o voyeurismo:

Inicialmente cabe dizer que o sentimento de culpa atravessa todo o longa-metragem seja no que diz respeito ao comportamento voyeur do fotógrafo Jeffries, interpretado por James Stewart – que, – seja quanto a forma obsessiva com que se empenha a convencer os outros de que um morador do prédio em frente ao seu assassinara a esposa. Neste diapasão, o protagonista é, não raro, julgado por espiar os outros bem como criticado por tecer teorias incriminadoras que não possuem qualquer respaldo probatório. Assim, tem-se um personagem que parte de uma lógica não cartesiana e que uma vez não tendo testado nem demonstrado indícios favoráveis a sua linha de raciocínio, acaba limitado a frágeis suposições sobre a autoria de um suposto crime², restrição essa que, entretanto, não o impede de convencer outras pessoas a praticar atos como invasão de domicilio e usurpação de poder de polícia em favor da comprovação de sua tese³ - aspecto esse em que o diretor Alfred Hitchcock, graças ao jogo de campo e contracampo arquitetado, torna o espectador não só cúmplice como também participante dos atos de intromissão do protagonista na vida dos vizinhos.

  1. Elenco perfeito:

Mesmo em meio a uma quase total imobilidade de seu personagem, James Stewart consegue transitar facilmente por sentimentos como tédio, culpa, aflição, alívio e medo, além de injetar nos diálogos a ironia tão comum ao humor inglês de Hitchcock. Stewart, aliás, faz uma ótima parceria com Thelma Ritter que ao seu lado funciona como uma espécie de voz da consciência pronta para também reforçar o tom cômico da obra. Grace Kelly, por seu turno, injeta sensualidade em uma atuação elegante e ao mesmo tempo despojada que combina perfeitamente os elementos exigidos por seu papel.

  1. Um roteiro perfeito e principalmente um cenário perfeito:

Quanto ao roteiro, cabe destacar sua excelência primeiramente pela forma como adaptara o conto original de Cornell Woolrich, acrescentando muitos personagens antes inexistentes, como alguns dos vizinhos vistos pelos olhos de Stewart, além da própria socialite vivida por Grace Kelly. A junção dessas inovações, vale dizer, potencializou o trabalho na medida em que lhe garantiu uma muito bem dosada e sincronizada mistura de gêneros como drama, suspense, policial e comédia, sem que o foco jamais fosse ofuscado por historietas coadjuvantes pertencentes ao ecossistema encenado.
Não fosse o bastante, o script denota um sem número de soluções visuais que dispensam diálogos face o universo diegético da rotina de um homem que muitas vezes sozinho não tem com quem compartilhar de imediato aquilo que vê seus vizinhos fazendo. A intervenção externa aos eventos ocorridos nos apartamentos dos vizinhos do protagonista é, neste passo, quase nula. Não há aqui montagem paralela para demarcar fatos acontecidos em locais muito distantes, eis que a diegese se limita ao espaço do mega cenário montado, o que explica a absoluta prevalência dos já mencionados plano e contraplano no trabalho de decupagem.
Dentro deste contexto, no que concerne a construção da trilha sonora, Peter Bogdanovich chama a atenção para o fato de que o filme, uma vez intencionalmente voltado a ser uma representação da realidade, como manda a tradição do cinema clássico, é curiosamente desprovido de música em sua quase totalidade. Conforme sua ótica: “A única música era a que alguém tocava do outro lado. Alguém ouvia um disco ou tocava piano. Fora isso, não havia música, o que na época constituía uma trilha sonora incomum e ousada. Dá uma espécie de verossimilhança, a noção de que ninguém interfere, de que isto é real. E Hitchcock estava ciente disso”⁴.
Ainda quanto ao aspecto da concepção visual determinada a partir do roteiro, cabe frisar que Janela Indiscreta estabelece um nítido paralelo entre cinema e teatro ao passo em que, por exemplo, firma uma geometria cenográfica calcada no vértice imaginário do olhar, eis que o espectador, tal qual como se estivesse num teatro, assiste por meio dos olhos e da lente fotográfica do personagem principal uma espécie de peça cujo palco (apartamentos do prédio em frente ao de Jeffries) é separado da plateia por um fosso tipicamente teatral representado pelo pátio que separa os dois prédios. Tal compreensão fílmica, saliente-se, tem como origem o raciocínio de Ismail Xavier para quem: “Filme de estúdio, Janela Indiscreta é ostensivo na estrutura teatral da cenografia que, ao longo do filme, não se altera, como quando assistimos a uma peça com unidade de lugar⁵.
Em sentido parecido, Robin Wood, autor de Hitchcock’s Film Revisited, observa que: “Jeffries e outras personagens usam os apartamentos opostos como uma espécie de tela de cinema. Fazem o que eu acho que a maioria faz quando vê cinema. Identificam-se em parte com outros, comparam em parte as suas vidas de várias com as vidas de outros, usam essas vidas para falar das suas próprias vidas de várias formas”⁶.
Como muito já fora adiantado sobre a importância do cenário em Rear Window, a abordagem, por fim, merece ser complementada pelas palavras, novamente, de Joshua Klein que assim conclui: “Janela Indiscreta é construído de forma tão minuciosa quanto seu complexo cenário. Assisti-lo é como observar um ecossistema vivo, pulsante”⁷.

  1. Um filme que é ainda melhor do que a soma de suas partes:

Alçado a condição de personagem, o cenário desta obra-prima fora fruto de um complexo trabalho de engenharia cuja autorização para construção só fora dada pelo estúdio porque quem capitaneava o projeto era ninguém menos que Alfred Hitchcock, o exímio contador de histórias, responsável ao término da pós-produção por juntar com inquestionável homogeneidade todas as partes citadas e, por conseguinte, tornar o resultado final mais grandioso que qualquer um dos importantes elementos técnico-narrativos analisados ao longo do texto.
Por isso tudo, Janela Indiscreta permanece tecnicamente impecável e invejavelmente eficiente em termos de narratologia. Não à toa, qualquer filme que se propõe a explorar o tema do voyeurismo – como Peeping Tom, de Michael Powell, e Não Amarás, de Krzysztof Kieslowski – acaba revelando em sua essência ecos da realização de Hitchock, influência, aliás que deverá continuar para sempre ocorrendo...
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1.Edward Buscombe in 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. Rio de Janeiro: Sextante, 2008. p. 294.
2.Dentro deste contexto, sugere-se a leitura de CABRERA, Júlio. Descartes e os fotógrafos indiscretos (A dúvida e o problema do conhecimento) in O cinema pensa: uma introdução a filosofia através dos filmes. Rio de Janeiro: Rocco, 2006. cap. 5,  p. 140-158.
3.Tamanha conduta culposa, frise-se, é espiada no clímax através da “descoberta“ do assassino que, na concepção de Ismail Xavier, exerce um papel de bode expiatório na medida em que comete um sacrifício que adiante trará melhorias para a vida de toda uma comunidade, no que se incluem o protagonista e os vizinhos que individualmente ganham seus respectivos finais felizes. Dito isso, recomenda-se a leitura de Cinema e Teatro – A Noção Clássica de Representação e a Teoria do Espetáculo, de Griffith a Hitchcock in XAVIER, Ismail (org). O cinema no século. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 247-266.
4-6. Entrevista extraída do documentário Rear Window Ethics – Remembering and Restoring a Hitchcock Classic.
5.Cinema e Teatro – A Noção Clássica de Representação e a Teoria do Espetáculo, de Griffith a Hitchcock in O cinema no século. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 247-266.
7.Op. Cit. p. 295.

FICHA TÉCNICA
Direção: Alfred Hitchcock
Produção: James C. Katz
Roteiro: John Michael Hayes, baseado no conto ‘It Had to be Murder’ de Cornell Woolrich
Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr, Judith Evelyn, Ross Bagdasarian, Georgine Darcy, Sara Berner, Frank Cady, Jesslyn Fax, Rand Harper, Irene Winston, Havis Davenport
Fotografia: Robert Burks
Trilha Sonora: Franz Waxman
Duração: 112 min. 

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