EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 29 de dezembro de 2012

O Impossível



Ainda Há Esperança

Acachapante: eis o adjetivo que melhor define O Impossível (EUA/Espanha, 2012). Se Clint Eastwood já havia em Além da Vida (EUA, 2010) dado uma amostra do que seria em termos visuais a magnitude trágica representada por um tsunami, o espanhol Juan Antonio Bayona concentra todas as suas forças em tal fenômeno da natureza, potencializando ao enésimo grau os reflexos emocionais deste por meio da improvável, entretanto real, história de uma família separada pelas ondas gigantes.
Neste sentido, Bayona sabe que o enredo por ele descoberto em meio aos relatos de sobreviventes da tragédia é absurdamente incrível, daí porque não perde tempo tentando acrescentar à trama qualquer eventual e desnecessário toque pessoal. Em razão da enorme dramaticidade apresentada pela história desde a fase de coleta de depoimentos¹, o cineasta interfere o mínimo possível neste diapasão, deixando, assim, a cargo de seu elenco – no que se destaca Naomi Watts, uma outra força da natureza, pode-se dizer – as emoções geradas a partir do medo e do desespero envoltos na perspectiva que os personagens possuem de jamais rever os familiares perdidos após a chegada do tsunami. Uma vez conectada aos padrões hollywoodianos de roteiro desde sua raiz, a história, por conseguinte, dispensa qualquer intervenção de cunho filosófico e/ou religioso por parte da instância narrativa para a qual, por seu turno, sobre apenas a preocupação de tratar da esperança e da força de vontade movidas a partir do amor ao próximo - sim, o egoísmo por vezes dá as caras, porém, é a generosidade para com o semelhante, mesmo em meio a um cenário tão caótico, que acaba fazendo do homem um ser ainda digno de confiança.
Em sendo um filme sobre perdas – da inocência, sobretudo – mas também sobre reencontros, O Impossível logra o enorme êxito de falar aos sentimentos sem, contudo, parecer piegas. Bayona, vale dizer, emula o binômio ‘tensão-emoção’ que Steven Spielberg tão bem dominou em início de carreira, na medida em que arranca lágrimas sem, para tanto, recorrer a firulas estéticas manipuladoras. Sóbrio, mas, ao mesmo tempo arrebatador em seus elementos melodramáticos, o trabalho de Bayona explode aos olhos e ouvidos nas sequências de tensão seja pela forma como, por exemplo, maneja a montagem paralela, pelo modo como utiliza a banda sonora para fritar os nervos da plateia ante os ruídos de pernas fraturadas e peles rasgadas, seja, por fim, para fazer o espectador provar da dor não só interior como também exterior, física daqueles que foram vitimados pelo desastre natural supracitado. Dessa maneira, somos arremessados para o epicentro do tumulto com eficiência tal que passamos a compreender, praticamente com experiência de causa, o que é fazer parte de um evento catastrófico desse porte. Em curtas e alheias palavras, o longa-metragem “transforma o cinema catástrofe em uma obra de arte”².
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1.“Bayona saiu a campo paera recolher informações das pessoas que viveram aquele trauma e, entre a centena de histórias que ouviu, encontrou o caso extraordinário de um casal de espanhóis e seus três filho – no filmes, eles são ingleses” (ITIBERÊ, Suzana Uchôa in Revista Preview. Ano 3. ed. 39. São Paulo: Sampa, Dezembro de 2012. p.64).
2.Op. Cit. p. 64.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Juan Antonio Bayona
Produção: Belén Atienza, Álvaro Augustín, Enrique López Lavigne , Ghislain Barrois
Roteiro: Sergio G. Sánchez
Elenco: Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Russell Geoffrey Banks, Marta Etura, Geraldine Chaplin, Sönke Nöhring, Dominic Power, Olivia Jackson, Oaklee Pendegast, Bruce Blain, Teo Quintavalle, Nicola Harrison, Samuel Joslin, Gitte Witt, Byron Gibson, Oak Keerati, Laura Power, Natalie Lorence, Ploy Jindachote, Johan Sundberg, Cecilia Arnold, Henry Reed, Georgina L. Baert, Jan Roland Sundberg, Vanesa de la Haza, Christopher Alan Byrd, George Baker, Oli Pascoe, Lancelot Kwok, David Firestar, Marco Naddei, Desmond O'Neill
Fotografia: Óscar Faura                       Trilha Sonora: Fernando Velázquez
Estreia no Brasil: 21.122012                Estreia Mundial: 11.10.2012
Duração: 107 min.

Um comentário:

  1. esse filme está ganhando admiradores diariamente! estou muito ansioso para conferi-lo.

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