EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 24 de junho de 2011

Meia Noite em Paris


Método Comprometedor

A Cena: Após realizar outra de suas rotineiras viagens no tempo, o escritor Gil Pender (Owen Wilson) volta para a Paris dos anos 20 e numa festa reencontra Luis Buñuel, ocasião em que o primeiro aproveita para “dar” ao surrealista uma dica de roteiro para um filme, qual seja a filmagem de um jantar do qual os convidados não conseguem se retirar. Ensimesmado, Buñuel questiona Gil por qual motivo as pessoas não conseguem sair do evento e, como resposta, ouve apenas que aquilo seria algo para o cineasta refletir, muito embora a ele seja adiantado que máscaras e padrões comportamentais fatalmente ruiriam a partir daquela situação extrema. Ainda embasbacado com a ideia, Buñuel é deixado falando sozinho e repetindo a pergunta: “por que eles não podem deixar o lugar?”.
O Filme: Meia Noite em Paris (Midnight in Paris, EUA, 2011).
Conclusão: Como sabido, a piada metalingüística elaborada por Woody Allen envolve o Anjo Exterminador (México, 1962), obra clássica de Luis Buñuel. Dentro deste contexto, tem sido comum o entendimento de que o novo longa-metragem de Allen é melhor degustado se presente no espectador um conhecimento prévio sobre a história da arte, domínio esse, vale dizer, que se revela como principal gargalo de Meia Noite em Paris, pois:
·   ou as piadas não são entendidas e, com isso, o filme perde sentido para alguns
·   ou a metalinguagem é absorvida e, ato contínuo, apreciada ou repudiada, visto que as retratações de determinados seres resultam de certas liberdades “artísticas” passíveis de incômodo.
Neste passo, analisando o exemplo da supracitada cena, soa razoável o pensamento de que, por mais maluca que pudesse parecer, dificilmente uma idéia seria chocante o suficiente para Buñuel – ainda mais se levar-se em conta que na época encenada por Allen, o espanhol tanto já era amigo de Man Ray e Salvador Dalí quanto, por uma razão de cronologia, já filmara com este último o provocante Um Cão Andaluz (França, 1929)¹.
Desta feita, o grande problema de Meia Noite... reside não na abordagem fantasiosa do roteiro – até porque tal viés não é estranho na filmografia de Allen, vide o caso de A Rosa Púrpura do Cairo (EUA, 1985) – e sim no método com o qual certos artistas são homenageados².
Dito isso, outras duas ponderações merecem registros, quais sejam a composição deliberadamente maniqueísta das naturezas simpáticas ou antipáticas dos personagens principais bem como o aspecto por vezes formulaico de uma história que leva o protagonista a, ao fim de sua jornada, rever conceitos para, em seguida, admitir-se feliz consigo mesmo e com seu meio de origem.
Tantas reservas, entretanto, não impedem - por mais contraditória que possa ser - a conclusão de que, em sendo um filme de Woody Allen, Meia Noite em Paris naturalmente se porta como um programa acima da média e que jamais deve ser encaixado na concepção simplista do termo cinema cartão-postal, afinal essência e conteúdo são elementos que indiscutivelmente não faltam a obra.
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1.     Uma vez montado Um Cão Andaluz, Buñuel não sabia o que fazer com a produção. A solução surgiu quando lhe foi apresentado Man Ray que, por sua vez, acabara de rodar O Mistério do Castelo de Dé  e procurava um complemento de programa para a realização de uma sessão do filme (FONTE: BUÑUEL, Luis, Meu Último Suspiro. São Paulo: Cosac Naify, 2009. P. 153).
2.     Neste sentido, é preciso ser justo e frisar que apesar de ser possível identificar um olhar caricato de Allen para com os surrealistas, não se há de compreender este como um gesto de gosto duvidoso, mas sim como mera opção humorística.



FICHA TÉCNICA
Direção e Roteiro: Woody Allen

Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum e Jaume Roures

Elenco: Rachel McAdams (Inez)Tom Hiddleston (F. Scott Fitzgerald)Corey Stoll (Ernest Hemingway)Kurt Fuller (John)Mimi Kennedy (Helen)Gad Elmaleh (Detetive Tisserant)Owen Wilson (Gil)Michael Sheen (Paul)Adrien Brody (Salvador Dalí)Marion Cotillard (Adriana)Alison Pill (Zelda Fitzgerald)Daniel Lundh (Juan Belmonte)Laurent Spielvogel (Antiques Dealer)Marcial Di Fonzo Bo (Pablo Picasso)Adrien de Van (Luis Buñuel)Sonia Rolland (Joséphine Baker)Yves Heck (Cole Porter)Nina Arianda (Carol)Carla Bruni (Guia do Museu)Kathy Bates (Gertrude Stein)Léa Seydoux (Gabrielle)David Lowe (T.S. Eliot)

Fotografia: Darius Khondji

Direção de Arte: Anne Seibel

Figurino: Sonia Grande

Edição: Alisa Lepselter

Estreia no Brasil: 17 de Junho de 2011

Estreia Mundial: 11 de Maio de 2011
Duração:100 min.

2 comentários:

  1. Dizem que é um dos melhores do Allen em muito tempo. Espero que seja!

    http://cinelupinha.blogspot.com/

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