EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 12 de junho de 2011

Namorados Para Sempre

                                    Retrato Cru e Realista
 
Se ano passado o drama O Solteirão (Solitary Man, EUA, 2010) foi a produção estrangeira que recebeu o título mais bizarro em nosso mercado, 2011 já tem seu forte candidato ao posto com Namorados Para Sempre (Blue Valentine, EUA) que, não bastasse o horrendo nome em português, ainda fora submetido a uma oportunista campanha de distribuição que o promoveu como “o filme perfeito para a semana dos namorados; ainda que você não tenha um(a)" ?!?!?
Neste passo, apesar da ridícula estratégia de venda, o longa-metragem revela qualidades suficientes para conquistar ou irritar aqueles que se deixarem enganar pelo nome e método de divulgação da obra; afinal, ao contrário do tom xarope sugerido pela tradução pátria, o trabalho do cineasta Derek Cianfrance é, na verdade, um retrato cru e, portanto, realista do gradual processo de transformação da paixão numa experiência marcada por decepção e sofrimento.
Há quem diga, dentro deste contexto, que a narrativa traz em seu bojo uma visão limitada e tendenciosa ao mostrar o homem como um pobre-coitado errante, mas esforçado e romântico, ao passo que a mulher é vista como um ser insensível e insatisfeito. Todavia, respeitadas as peculiaridades de cada caso concreto, o que geralmente se vê/vivencia na prática não é a existência de um lado mais disposto a lutar pela relação e, por conseguinte, sofrer mais que o outro?
Logo, é possível inferir que, ao invés de se tratar de um olhar masculino sobre a separação, Namorados Para Sempre é uma obra que não titubeia ao apontar parâmetros – assumidos na vida real por qualquer um dos sexos – daí não ser recomendado concluir que da opção tomada pelo diretor surja uma defesa implícita do homem, já que tal escolha é fruto de uma mera e obrigatória distribuição de encargos entre os personagens.
Desta feita, se a rejeição de Cindy (Michelle Williams) para com Dean (Ryan Gosling) não possui grandes justificativas, é porque, via de regra, o cansaço enfrentado num relacionamento não advém de uma situação catártica, mas sim de reiterados desentendimentos que com o passar do tempo geram um desgaste tão profundo que elencar razões específicas para o fim se torna tarefa um tanto complexa.
Por isso, Namorados... cumpre aquilo a que se propõe com louvor, valendo-se para tanto de planos em sua maioria fechados que perpassam ao espectador a sensação de encarceramento experimentada pelo casal. Somam-se a isso os brilhantes desempenhos da dupla de atores principais que logra o êxito de transitar sem dificuldades entre as fases inicial e terminal da relação. Por fim, vale registrar os belos créditos finais que por meio de fotografias resumem tudo o que fora outrora visto na tela, reiterando, ainda, o porquê de por vezes duas pessoas permanecerem para sempre conectadas mesmo após todo o desamor vivido.

COTAÇÃO - ۞۞۞۞

Ficha Técnica
Direção: Derek Cianfrance
Roteiro: Cami Delavigne, Derek Cianfrance, Joey Curtis
Produção: Alex Orlovsky, Jamie Patricof, Lynette Howell
Elenco: Michelle Williams (Cindy)Faith Wladyka (Frankie Periera)Tamara Torres (Maria Guevara)Maryann Plunkett (Glenda)Eileen Rosen (Mimi)Samii Ryan (Amanda)Ashley Gurnari (Checker), Jen Jones (Gramma)James Benatti (Jamie)Barbara Troy (Jo)Marshall Johnson (Marshall), Ryan Gosling (Dean)Ben Shenkman (Sam Feinberg)Carey Westbrook (Charlie)John Doman (Jerry Heller)Mike Vogel (Bobby)
Fotografia: Andrij Parekn
Edição: Jim Helton, Ron Patane
Estreia Mundial: 27 de Dezembro de 2010
Estreia no Brasil: 10 de Junho de 2011
Duração: 114 minutos
Grande Cena: Cindy sapateia para Dean
Curiosidade: No que tange os créditos finais, Derek Cianfrance e o editor Jim Helton “são fãs de Saul Bass, que fez as famosas aberturas de Um Corpo que Cai e Psicose, e se inspiraram no mestre para ‘fechar’ o filme em grande estilo” (FONTE: Revista Preview. Ed. 20. Ano 2. Maio de 2011. p.53).

Nenhum comentário:

Postar um comentário