EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 9 de junho de 2010

A Tortura do Medo

Mudança de Pólos

Em Peeping Tom (Inglaterra, 1960) Londres serve novamente de cenário para assassinatos em série cometidos ao modo de Jack, o estripador. O diferencial, dessa vez, consiste no maquinário utilizado para consagrar a crueldade do criminoso. Munido de uma câmera de vídeo, Mark Lewis (Karlheinz Bohm) filma não só as mortes das mulheres que ataca como também os instantes anteriores aos crimes, captando, assim, o semblante de terror gerado pelo prenúncio fúnebre de seus destinos.
Neste passo, não satisfeito com tais imagens, o homicida registra, ainda, o trabalho de investigação da polícia nos locais em que são encontrados os cadáveres das vítimas concluindo, desta feita, os “documentários” que satisfazem sua lascívia no conforto do lar.
Retumbante fracasso de público e crítica à época de seu lançamento, A Tortura do Medo custou a carreira de seu diretor Michael Powell, o que talvez possa ser explicado pela incômoda inversão de papeis praticada no filme, posto que o voyeurismo compartilhado pela audiência sai do pólo passivo da mera observação para assumir a posição ativa da ação, pois, como outrora sugerido, não bastava ao protagonista da obra assistir, mas também torturar pelo olhar e, com isso, invadir os últimos instantes de intimidade de seus alvos.
Dentro deste contexto, o longa-metragem traz em seu bojo um manancial de inspirações fílmicas, no que se destaca o cinema de Alfred Hitchcock seja pela extrapolação de uma temática igualmente abordada em Janela Indiscreta (Rear Window, 1954), seja pela perturbação psicológica de um personagem principal que em muito lembra o Norman Bates de Psicose (cuja estréia ocorrera no mesmo ano da obra em comento).
No que tange seu legado, Peeping Tom exerceu influência em produções contemporâneas, como, por exemplo, Crash de David Cronemberg, isso porque sua retratação da apreciação pelo grotesco – o psicopata fotografa com imenso fascínio uma mulher cuja deformidade no rosto quase configura um lábio leporino – embala cada cena de sexo do segundo filme – cujos cenários, frise-se, são os interiores de automóveis colididos propositalmente, ao passo que os personagens são parceiros sexuais ensangüentados e por vezes mutilados.
Por outro viés, a herança do título em comento pode ser visualizada ainda hoje naquilo que diz respeito a sua linguagem cinematográfica, isso porque o recurso da fusão entre os raios de visão do espectador e da câmera manipulada por um membro da história seria redescoberto na última década em trabalhos comerciais como REC e Cloverfield os quais, em virtude de aplicarem tal idéia ao longo de todas as suas cenas, instituíram, assim, o subgênero dos chamados “falsos-documentários”.
Não fossem o bastante suas inspirações e influências, o trabalho de Michael Powell revelou-se, também, imbuído de ares proféticos ao prever uma degradante tendência criminosa que se consolidaria com o passar dos anos, qual seja a produção dos “snuff movies” - filmes caseiros, para venda no mercado negro, recheados de imagens reais de assassinatos – realidade essa já encenada em produções como 8MM e Testemunha Muda.
Apesar de haver sofrido os efeitos do tempo quanto a força de sua imagem, o enredo de A Tortura do Medo permanece fomentando variadas leituras e análises sobre as conseqüências do medo no comportamento humano seja quanto a ótica passiva das conseqüências causadas pelo pânico, seja no que atine o prisma ativo de quem utiliza o temor  como instrumento de dominação e de satisfação pessoal.
Isso, aliás, lembra Bush e sua política do medo; teriam seus assessores assistido Peeping Tom?

COTAÇÃO: ****

Ficha Técnica
Título Original: Peeping Tom
Direção e Produção: Michael Powell
Roteiro: Lee Marks
Fotografia: Otto Heller
Elenco: Karlheinz Bohm, Moira Sheares, Anna Massey, Maxine Audley, Brenda Bruce, Miles Malleson, Michael Powell
Duração: 104 minutos
Curiosidades:
O pai de Mark Lewis é interpretado pelo próprio diretor do filme, Michael Powell.
Quando estreou na Inglaterra Peeping Tom foi imediatamente rejeitado pelo público, sendo, ainda, objeto de severas condenações da crítica especializada. Neste sentido, as reações contra a obra foram tão hostis que sua distribuidora preferiu retirar o filme das salas de projeção ao término de apenas uma semana de exibição.
Após este revés Michael Powell conseguiu realizar apenas mais três filmes durante os trinta anos que se seguiram até sua morte, em fevereiro de 1990.
Peeping Tom permaneceu esquecido até 1979, quando Martin Scorsese, após descobrir uma cópia original da produção no New York Film Festival, promoveu o restauro da película e a sua divulgação em sessões para cinéfilos.

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