EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 4 de maio de 2010

Alice no País das Maravilhas

Correria no País das Maravilhas

                     Lembro da expectativa que criei ao ter acesso as primeiras imagens de divulgação da versão século XXI de Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, EUA), afinal, um material dessa qualidade nas mãos de um cineasta de talento como Tim Burton não teria como dar errado; mas, numa dessas imprevisibilidades da vida, eis que o caldo entornou e o filme se revelou como o maior fiasco artístico da carreira do diretor.
                   Anos depois, Burton lançou outro remake, desta vez de A Fantástica Fábrica de Chocolate (Charlie and the Chocolate Factory, EUA) produção esta que, por contar com Johnny Depp na pele de Willy Wonka, prometia render entretenimento de primeira linha; contudo, novamente os anseios foram frustrados pelo resultado soporífero e repetitivo da obra.
                  Com Alice no País das Maravilhas o diagnóstico negativo permanece, porém, dessa vez, mesmo na presença de  imagens de divulgação espetaculares em sua beleza plástica, a esperança de assistir a um filme de grande qualidade já não existia,  o que, por outro lado, permitiu que os raros momentos de crescimento da obra pudessem ser apreciados  com mais afinco.
                   Neste sentido, tal como a personagem Alice tem de aumentar ou reduzir de tamanho conforme as circunstâncias da história, a versão de Tim Burton para a obra de Lewis Carroll¹ diminui enquanto tem de se ater a aspectos formulaicos do cinemão hollywoodiano e cresce nas poucas oportunidades em que o cineasta pode exprimir idéias que caminham além da mera assinatura gótica.
                   Aliás, enquanto forma, frise-se, a produção é impecável em suas imagens; todavia, enquanto conteúdo padece de uma dramaturgia rasa oriunda da necessidade de encaixe de tantos elementos em menos de duas horas de duração de filme.
                    Por isso, a pressa, a correria se mostram como as grandes falhas deste trabalho, o que acaba por permitir que personagens interessantíssimos como a Rainha Vermelha, o Gato Risonho entre tantos outros ganhem muito pouco tempo em tela, deixando, assim, de serem devidamente explorados, razão pela suas densidades restam, infelizmente, diluídas.
                    Até mesmo o deslocamento de Alice no mundo real, por exemplo, é privilegiado sob o prisma da forma através do destaque de suas olheiras, o que para um artista do porte de Tim Burton - que já analisou tão habilmente questões dessa espécie em trabalhos como o curta-metragem Vincent e o longa Edward Mãos de Tesoura - resulta numa projeção artificial do enredo.
                    Entretanto, como afirmado anteriormente, seria injusto negar que em determinadas passagens este novo Alice no País das Maravilhas  quase chegue a decolar num vôo que, infelizmente, logo é interrompido pela correria ainda há pouco comentada. Neste diapasão, a responsável por esses minutos de vigor da obra se chama Helena Bonham Carter que com sua Rainha Vermelha atropela o Chapeleiro mais apagado do que maluco de Johnny Depp, a insossa Rainha Branca de Anne Hathaway e a Alice sem carisma de Mia Wasikowska.
                   Numa interpretação que pode ser considerada a melhor de sua filmografia, Helena Bonham Carter enche de brilho a tela ao encarnar de forma hilária uma personagem cruel e politicamente incorreta, levando-nos, por conseguinte, a especular o quão interessante e mais divertido resultaria uma produção dedicada somente a sua monarca.
                   Resta agora torcer para que o sucesso comercial do filme não impeça Tim Burton de perceber que as refilmagens, os filmes-eventos - à exceção de Batman - não são a sua praia por inevitavelmente limitarem as suas idéias, eis que muito mais do que um artista com identidade visual própria, Burton também é um cineasta autoral capaz de compor verdadeiras jóias quando autorizado a filmar roteiros de sua própria lavra envolvendo histórias nunca antes contadas. ²
                  Torçamos então para isso e até para, quem sabe, o lançamento em DVD de uma versão estendida de Alice com o corte final do diretor. Sonhar, tal como Alice faz, não custa nada.
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1 - Dizer que este Alice não é um remake mas sim a produção de um roteiro original que retrata a continuação da saga da personagem não passa de falácia, já que sua trama não passa de mais do mesmo.
2 - Vide, por exemplo, a sensibilidade impressa em longas como Peixe Grande e Ed Wood.

COTAÇÃO - ***

Ficha Técnica
Título Original: Alice in Wonderland
Direção: Tim Burton
Roteiro: Linda Woolverton
Produtores: Jennifer Todd, Joe Roth, Richard D. Zanuck, Suzanne Todd

Elenco: Helena Bonham Carter, Marton Csokas," Matt " Richard Lucas,Tim Pigott-Smith, Michael Sheen, Barbara Windsor,Paul Whitehouse, Mia Wasikowska, Johnny Depp, Anne Hathaway, Timothy Spall, Christopher Lee, Crispin Glover, Stephen Fry , Alan Rickman
Estreia: 23 de Abril de 2010
Duração: 108 minutos

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