Homem de Ferro 2

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                É fato que as sequências dos filmes de super-heróis trazem em seu bojo um bônus e um ônus, quais sejam, representando o primeiro, a liberdade adquirida para contar uma história nova após o cumprimento do obrigatório relato sobre a origem do protagonista, bem como, fazendo as vezes do segundo, a necessidade de apresentação ao público de elementos novos e a mais, o que é explicado tanto pela mega exposição do filão, quanto pelas exigências de fãs de quadrinhos que, através de boca-a-boca (agora mais virtual do que presencial), contribuem de forma indiscutível para o sucesso ou fracasso comercial da produção.
                Sam Raimi, por exemplo, conseguiu conter a inclusão de elementos em demasia na primeira continuação de Homem-Aranha, o que lhe permitiu concentrar-se não só no ritmo da aventura como também nas definições das personalidades dos personagens, razão pela qual  obteve o êxito de gerar uma obra fiel quanto a sua gênese e primorosa no que atine a sua dramaturgia. Já em Homem-Aranha 3, suas qualidades artísticas e a calorosa recepção de platéias do mundo todo para com os filmes anteriores não foram suficientes para impedir famigeradas exigências dos produtores que obrigaram, assim, o cineasta a incluir na trama dessa última parte da trilogia um número avantajado de personagens novatos – no que fora incluso Venon, um vilão das novas gerações que por sua essência caricata fora sumariamente rejeitado pelos fãs mais antigos do aracnídeo, rol no qual se inclui o próprio Raimi – o que acabou por resultar em um filme deveras irregular, caracterizador de um final indigno à trajetória cinematográfica de Peter Parker capitaneada por aquele diretor.  
                Homem de Ferro 2 segue a regra do ônus e do bônus, mas, surpreendentemente, manipula tais fatores em proveito próprio com inegável competência, isso porque aproveita seu enredo para oferecer, principalmente ao público mais jovem, bem-vindas reflexões acerca das intragáveis corridas armamentistas tradicionalmente apoiadas por Estados em conluios com a iniciativa privada, estratégia essa concretizada mediante o exemplar atrelamento das  cenas de ação hypadas e dos inevitáveis novos personagens a um roteiro redondo e homogêneo que, além de não deixar qualquer ponta solta, ainda planta sementes para o que virá pela frente com Os Vingadores, vide a impagável cena envolvendo o escudo do Capitão América, bem como a sequência mostrada após o término dos créditos da obra em comento – o que, aliás, revela a formação de uma curiosa característica dos filmes protagonizados pelo Iron Man.
                Dentro deste contexto, novato ou veterano, cada personagem da trama ganha não só o tempo em tela milimetricamente exato – o que para alguns representa, inclusive, um “pouco” necessário – como também felizes personificações entregues pelos integrantes do elenco – exceto, é claro, por Gwyneth Paltrow, insossa como de costume – num visível comprometimento e carinho para com o material original e para com a saga que está sendo solidificada nos cinemas.
                Isto posto, é extremamente prazeroso ser agraciado com cada novo trabalho de Robert Downey Jr. que, na pele de Tony Stark, esbanja carisma e confiança – tal como, ressalte-se, demonstrou em todas as demais produções em que participou desde sua vitória pessoal sobre a dependência química. Seja como um Sherlock Holmes bom de briga, seja como o ator amalucado e preconceituoso de Trovão Tropical, Downey Jr. aplica tanta naturalidade a seus papeis que em cena sequer lembramos que o artista está em um set de filmagem, visto que, na verdade, ao espectador mais parece que o artista está no quintal de sua casa brincando  de interpretar – no melhor sentido do termo – tamanha sua segurança e desenvoltura no manejo de interpretações que jamais se confundem, apesar do característico tom informal e mordaz das mesmas.¹
                Não fosse o bastante dispor de:
·         script bem amarrado que também se permite ser cômico,
·         direção esperta quanto a concatenagem das idéias apresentadas,
·         trilha rockeira a pontuar as cenas com o som de bandas como AC/DC, The Clash e Beastie Boys,
·         elenco engajado para com o produto,
Homem de Ferro 2 ainda presenteia os fãs do herói – principalmente no que tange sua ala masculina – com a estonteante presença de Scarlett Johansson a qual, como Viúva Negra, exala sensualidade, seja distribuindo socos e pontapés, seja dirigindo olhares sedutores a um Tony Stark que se vê obrigado a reconhecer que ninguém é de ferro. Nem ele.
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1.    Sem se deixar influenciar negativamente pela pressão e expectativa de êxito comercial que acompanham seus blockbusters, Robert Downey Jr. completou uma curiosa transição do posto de ator menos confiável de Hollywood – dada suas freqüentes recaídas quando ainda era preso ao vício que lhe acometia – para a posição de artista xodó dos estúdios e cineastas, num reconhecimento de que seu nome agrega, além de padrão de qualidade, um status cool a qualquer produção.

Ficha Técnica
Título Original: Iron Man 2
Direção: Jon Favreau
Roteiro: Justin Theroux
Produtores: Kevin Feige
Elenco: Mickey Rourke (Ivan Vanko)Scarlett Johansson (Natasha Romanoff) Robert Downey Jr. (Tony Stark)Don Cheadle (James Rhodes)Gwyneth Paltrow (Pepper Potts)Samuel L. Jackson (Nick Fury)Sam Rockwell (Justin Hammer)
Estreia: 30 de Abril de 2010
Duração: 124 minutos

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