O Corpo Como Agente Prisional



Johnny Vai à Guerra relata a triste história de Joe, um jovem soldado que, imbuído de um inconsequente espírito patriótico, se alista voluntariamente para defender seu país nos campos de batalhas da I Guerra Mundial.
Abatido numa trincheira, o rapaz se torna um mero torso incapaz de falar, ver e ouvir, o que o leva a ser recolhido para tratamentos médicos, um tanto quanto duvidosos, que resultam no seu trancafiamento em um depósito hospitalar como forma de evitar que pessoas, além da equipe médica, testemunhem aquilo a que são expostos em combate os intrépidos defensores da pátria.
Ocorre que, ao contrário de como imaginado por todos, a atividade cerebral daquele garoto sem braços nem pernas mantém-se intacta, o que lhe permite, de forma paulatina e em meio a recordações e devaneios, compreender o mal que lhe afligira.
Famoso libelo pacifista do escritor e roteirista Dalton Trumbo, Johnny Vai à Guerra fora a primeira e única experiência do artista enquanto cineasta. Tal exercício tardio da direção cinematográfica se deu, sobretudo, em virtude da perseguição macarthista da qual fora vítima e que gerara, inclusive, sua prisão durante o período de dez meses. Assim, somente na década de 70, quando do boom do cinema independente americano, o trabalho de Trumbo voltou a ser publicamente valorizado a ponto de lhe garantir financiamento para finalmente realizar sua tão ansiada estréia na direção.
Portanto, revela-se deveras coerente sua opção por filmar o drama do soldado Joe, eis que, a partir desse enredo, Trumbo dispõe não só da possibilidade de análise do sofrimento oriundo da prisão em que se transformara o próprio corpo do protagonista, num paralelo ao encarceramento que lhe fora aplicado, como também o viés da observação dos motivos e conseqüências das escolhas tomadas pelo personagem ao longo de sua vida, além da reflexão sobre o poder do Estado enquanto agente modificador da vida do indivíduo.
Neste passo, o filme parte de um recurso a primeira vista simplório, mas não por isso ineficaz – muito embora reste claro os efeitos do tempo sobre o aspecto visual da obra –, para caracterizar a diversidade de momentos e sentimentos de seu protagonista, qual seja a aplicação de uma paleta colorida para seu passado – representativa, portanto, da alegria e da vitalidade existentes em tal época – e uma outra em preto e branco definidora da escuridão reinante nos dias atuais do personagem.
Lançando mão de artifícios como esse, Dalton Trumbo demonstra sensibilidade e firmeza na condução da trama, o que - apesar da presença de tema arriscado a desaguar em melodrama - impede a obra de ser piegas, restando mantida, dessa maneira, a força e o valor de um discurso pró-paz ainda hoje necessário.
Indo mais além na observação do corpo enquanto agente prisional do homem, O Escafandro e a Borboleta, retrata, por sua vez, a trajetória do jornalista parisiense Jean-Dominique Bauby, editor da revista Elle que, após sofrer um acidente vascular encefálico, é acometido da síndrome do encarceramento (Locked-in), perdendo, então, a fala e todos os seus movimentos, à exceção da pálpebra esquerda, com a qual, através de piscadelas, passa a se comunicar com o “lado de fora”.
Desprovido de nuances políticas como as da obra primeiramente analisada, esta produção francesa dedica todo seu tempo a mergulhar na mente de Jean-Do e conhecer, desse modo, seus arrependimentos familiares, frustrações e medos. Para tanto, o diretor Julian Schnabel, munido de uma câmera que faz as vezes do abalado olhar do protagonista, transita tranquilamente entre a sensação de cárcere que transformara o corpo de Bauby em  um escafandro, bem como entre a liberdade que o mesmo goza, tal qual uma borboleta, quando se permite viajar, voar em memórias e imaginações.
Tocante do início ao fim, o longa garante sua perfeição através da qualidade de todos os elementos que o compõem; desta feita, elenco, fotografia, montagem, direção de arte e trilha sonora, por exemplo, são harmonizados em torno do objetivo maior de contar com dignidade e sem qualquer maniqueísmo um drama que, não obstante sua fatalidade, é também imerso em otimismo.
Dentro deste contexto, merece destaque, novamente, a direção de Schnabel por não buscar santificar seu personagem principal nem apelar para a compaixão do espectador, o que, por outro lado, não gera uma dramaturgia fria graças a franqueza de sua mensagem de irresignação.
Seja por meio de uma ótica macro atinente a estupidez das guerras, seja através de uma visão minimalista acerca dos erros e acertos de um homem, a paralisia, a total amputação de membros são inegável e coerentemente tratadas nas produções comentadas como elementos enclausuradores, mas também como lembrança do reconhecimento, respeito, paixão e admiração que se há de nutrir pela vida.
Por isso, viva a vida, viva o cinema...

COTAÇÕES:
Johnny Vai à Guerra - ☼☼☼              O Escafandro e a Borboleta - ☼☼☼☼☼

 

Ficha TÉcnica - Johnny vai à guerra

Título Original: Johnny got his gun
País de Origem:  EUA
Direção e Roteiro: Dalton Trumbo
Duração: 106 minutos

 Ficha Técnica – O ESCAFANDRO E A BORBOLETA:
Título Original:  Le Scaphandre et le Papillon
País de Origem:  França / EUA
DireçãoJulian Schnabel
Roteiro:Ronald Harwood, baseado em livro de Jean-Dominique Bauby
Produção:Kathleen Kennedy e Jon Kilik
Música:Paul Cantelon
Fotografia:Janusz Kaminski
Figurino:Olivier Bériot
Edição:Juliette Welfling
Elenco: Mathieu Amalric (Jean-Dominique Bauby), Emmanuelle Seigner (Céline Desmoulins), Marie-Josée Croze (Henriette Durand), Anne Consigny (Claude), Patrick Chesnais (Dr. Lepage), Niels Arestrup (Roussin), Olatz Lopez Garmendia (Marie Lopez), Jean-Pierre Cassel (Lucien / Vendeur Lourdes), Marina Hands (Joséphine), Max Von Sydow (Papinou), Isaach De Bankolé (Laurent), Emma de Caunes (Imperatriz Eugénie), Jean-Philippe Écoffrey (Dr. Mercier), Nicolas Le Riche (Nijinski), Lenny Kravitz
Duração: 112 minutos
Ano de Lançamento:  2007
Estreia no Brasil: 04/07/2008
Site Oficial:  http://www.lescaphandre-lefilm.com
Distribuidora
Miramax Films / Europa Filmes

Curiosidades:

A síndrome de Locked-in é com frequência descrita como sensação próxima a de ser enterrado vivo.
Émile Zola, em seu conto Thérèse Raquin relata o caso de Madame Raquin que, após sofrer dois derrames, é paulatinamente tomada por uma paralisia incapacitante que evolui em seguida para a síndrome de Locked-In.
Inicialmente Johnny Depp faria o papel de Jean-Dominique Bauby, mas o ator teve de deixar o projeto devido a agenda de filmagens de Piratas do Caribe - No Fim do Mundo.
O cantor Lenny Kravitz faz uma rápida aparição na cena em que Jean-Dominique participa de um ensaio fotográfico.

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