EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 21 de maio de 2010

O Fundo do Coração


A Beleza das Minúcias
Frannie é uma vitrinista que sonha com uma vida de aventuras pelas paisagens dos locais exóticos retratados nos cenários por ela construídos. Já Hank é um boa praça que prefere investir dinheiro na compra da casa onde mora com a namorada Frannie, o que acarreta uma insustentável incompatibilidade de pensamentos entre o casal.
Separados, então, em pleno feriado de 04 de julho, cada um conquista de forma abrupta a independência e liberdade almejadas para seguirem seus planos e para buscarem, por conseguinte, outros pares. Todavia, a separação não tarda a demonstrar seu lado ambíguo, controverso, revelando-se, então, ora desejada ora repudiada.
Confuso com o rumo que sua vida tomara, Hank perambula com seu melhor amigo Moe pelos festejos do feriado mencionado, quando percebe seu cansaço perante a alegria dissimulada dos transeuntes, ocasião essa em que confessa o quanto as luzes de Las Vegas o incomodam, pois para ele tanto enfeite torna tudo fake, não sendo à toa, portanto, sua preferência pelo vazio do deserto norte-americano nos momentos em que precisa refletir ou ter um romântico momento a dois.
Tal idéia resume, assim, o conceito de O Fundo do Coração (EUA, 1982). Num filme em que cada elemento audiovisual possui uma função e/ou significado para a trama, Francis Ford Coppola destrincha com imensa elegância a superficialidade e a fragilidade das relações humanas e em especial aquelas de caráter amoroso.
Piegas em seu início e em seu término, o namoro de Hank e Frannie é posto perante todas as provas de fogo pelas quais um casal costuma passar, de forma que somente após o fim de uma jornada de desilusões o reencontro de ambos adquire ares de maturidade, instante esse em que Coppola despe sua composição visual de toda iluminação teatral que acompanha a obra, dando a seus protagonistas, desta feita, a realidade serena que tanto perseguiam.
Neste sentido, a luz se caracteriza tanto como narrador quanto como personagem do filme, o que garante a este beleza e sutileza ímpares, mostrando, assim, a força e a importância da fotografia no cinema de Coppola.
A montagem, por sua vez, faz amplo uso de imagens sobrepostas para demonstrar que, apesar de afastados, Hank e Frannie permanecem pertos um do outro através de seus pensamentos - por mais cafona que isso possa parecer, afinal, como deixa claro o diretor, assim são conduzidas muitas de nossas relações.
A música de Tom Waits também merece destaque por sua habilidade em não apenas pontuar o filme, como também em substituir diálogos e até exprimir sensações dos personagens.
Como já dito, todas as escolhas de Coppola para este trabalho possuem razão de ser, daí a escalação de atores medianos para os papeis principais do enredo, o que dentro de sua proposta revela-se como uma decisão certeira que entrega ao público interpretações deliciosamente caricatas de Frederic Forrester (Hank) e Teri Gaar (Frannie).
Por fim, O Fundo do Coração talvez seja o filme cujo trabalho de direção de arte tenha se tornado o mais comentado da história do cinema. Decidido a extravasar o mundo das vitrines construídas por Frannie e das luzes rejeitadas por Hank, o cineasta optou por filmar em estúdio todo o roteiro, o que ao invés de reduzir custos, inflacionou sobremaneira o orçamento da produção, já que nenhuma cena externa, por exemplo, fora gravada, o que implicou na construção de um número assombroso de cenários.
Como o público à época do lançamento do filme não entendeu ou não comprou a idéia de Coppola, os vultosos investimentos de sua produtora Zoetrope não foram recuperados, levando o cineasta, consequentemente, à bancarrota e a um forçado intervalo de suas atividades.
Não há dúvida de que esta obra-prima fora cruelmente injustiçada pelas bilheterias, mas, de qualquer forma, o problema maior permanece sendo daqueles que não a viram e que perdem, assim, a oportunidade de conhecer um trabalho de sublime beleza plástica e de inegável domínio de um artista sobre o desenvolvimento de um conceito.

COTAÇÃO - ☼☼☼☼☼             

Ficha Técnica
Título Original: One from the Heart
Duração: 107 minutos
Curiosidade: O casal de atores coadjuvantes deste filme Harry Dean Stanton e Nastassja Kinski foram dois anos depois escalados como os protagonistas do drama Paris, Texas (1984, Inglaterra/França/Alemanha) dirigido por Wim Wenders.

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