EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 1 de maio de 2010

Rashomon


Moderno e Atual

Em Rashomon Akira Kurosawa filma a história de um triângulo amoroso envolto em intrigas e assassinato, crime esse cujas reconstituições são apresentadas mediante quatro diferentes óticas.
Graças ao esmero da montagem - que lida habilmente com as idas e vindas no tempo -, ao tom enérgico da trilha sonora e a beleza de uma fotografia composta por inteligentes enquadramentos, a obra logra êxito em expor versões de um mesmo ato que, em sendo obviamente díspares, não inspiram a menor confiança, dado o tom lisonjeiro com que cada locutor manifesta opinião a seu respeito.
Desta feita, atuando em causa própria cada personagem tenta se sobrepor aos demais explorando aquilo que para eles são suas virtudes, tornando, assim, uma triste utopia a busca pela verdade absoluta.
Neste diapasão, um elenco primoroso defende com afinco as vicissitudes de cada papel, destacando-se nesse meio o criminoso impiedoso interpretado por um Toshiro Mifune com ares esquizofrênicos.
Outrossim, embora trate de aspectos maquiavélicos da natureza humana, Kurosawa produz, através do emblemático epílogo, uma ode a redenção e a renovação da esperança, numa clara manifestação de desprezo ao egoísmo alimentado por tantos.
Por isso, é na força de sua narrativa que, apesar de produzido há 60 anos atrás, Rashomon se firma como um trabalho cinematográfico incrivelmente moderno no que tange sua linguagem técnica e infelizmente atual no que concerne a sua temática, daí não ser à toa a obra servir de “inspiração” até hoje para tantas outras produções.¹

_____________________________
¹. Como, por exemplo, é o caso do mais recente Ponto de Vista (Vantage Point, EUA, 2009).

COTAÇÃO: ۞۞۞۞


Ficha Técnica

Direção:Akira Kurosawa
Duração: 89 minutos

Nenhum comentário:

Postar um comentário