EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 26 de maio de 2010

Clamor do Sexo / Um Lugar ao Sol


Opressão Sexual e Desigualdade de Classes

                        Prevendo a revolução sexual que não tardaria a ocorrer, Clamor do Sexo é a retratação definitiva do desejo reprimido. Num filme em que hormônios e feromônios saltam da tela, Bud Stamper (Warren Beaty) e Deannie Loomis (Natalie Wood) formam um casal adolescente cuja sexualidade é duramente oprimida pelo meio em que vivem, qual seja o estado do Kansas no ano de 1928.
O pai do garoto não compreende tamanho fascínio de seu filho pela namorada, daí não exitar em mudá-lo de cidade para que o mesmo curse universidade e se torne, assim, gente grande cuja lascívia pode ser aplacada por profissionais do ramo.
A mãe da garota, por sua vez, pouco se importa com o grau de afetividade nutrido por sua filha para com o namorado, eis que, na verdade, sua grande preocupação consiste em zelar pela virgindade da moça para que, assim, esta não se torne pessoa indigna a contrair matrimônio com o bom partido que Bud representa.
Por outro lado, a irmã de Bud acabara de retornar da cidade grande para cumprir exílio no Kansas por conta de condutas moralmente deploráveis para o momento. Sua presença, neste sentido, exala rebeldia e tensão sexual, o que não deixa de abalar ainda mais os nervos de seu irmão que, por sua vez, não consegue admitir a idéia de sentir tanto amor mas também tanto desejo por sua amada Deannie que, em cumprimento  as orientações de sua genitora, trata de se esquivar o mais rapidamente de qualquer toque mais ousado do rapaz - muito embora também tenha o sexo clamando dentro de s.
Desta feita, cada membro do casal, a seu modo particular, enlouquece com a falta de contato físico e com a posterior separação que urge por ocorrer. Ele se torna um vadio, ela uma depressiva que não pensa duas vezes antes de tentar o suicídio.
O puritanismo e a opressão impostas pela igreja, pela sociedade e, principalmente, por seus pais se voltam contra estes últimos que vêem, então, a infelicidade de seus filhos sem que consigam, em contrapartida, tomar qualquer atitude para a mudança do panorama.
Neste diapasão, a crise das bolsas de valores de Nova Iorque em 1929 eclode no momento em que Bud e Deannie reiniciam suas próprias caminhadas, daí o cenário desolado e abandonado que servirá de cenário para o último e mais infeliz encontro do casal – numa das despedidas mais dramáticas que o cinema já produziu.
Brilhante na construção de sua narrativa, Elia Kazan extrai da força de interpretações baseadas no método do Actors Studio a naturalidade e a sensibilidade propostas pelo enredo, valendo, por isso, destacar a segurança de Warren Beatty em sua estreia, bem como a leveza do trabalho de Natalie Wood.
Isto posto, o cineasta realiza profunda análise sobre sentimentos oprimidos sem nunca se esquecer da ambientação ecônomico-social da história, qual seja a desigualdade social de classes que logo se igualariam graças a crise econômica que assolaria a América.
Abordando semelhante temática, mas invertendo os pólos de predominância, Um Lugar ao Sol utiliza a sexualidade repreendida para, assim, enfatizar as diferenças de classes sociais.
Neste caso, portanto, é o desejo proibido que serve de moldura, isso porque George Eastman, personagem de Montgomery Clift, representa o primo pobre de sua abastada família, razão pela qual assume um emprego de baixo calibre nos galpões de empacotamento da fábrica de seus parentes, local onde não exita em burlar as regras da empresa para, assim, iniciar um flerte com uma das funcionárias (Shelley Winters).
A referida empregada, apesar de seus louváveis esforços, não consegue resistir aos encantos do rapaz e acaba, então, cedendo-lhe uma noite de amor. Apaixonada, Alice vê o interesse de George por ela diminuir à medida que este é aos poucos absorvido pelo universo de riqueza de seus familiares.
Deslumbrado com esse mundo novo, o rapaz logo conhece Angela Vickers (Elizabeth Taylor) por quem se enamora e por quem, para sua surpresa, passa a ser amado. Neste passo, inebriada com a beleza e com a personalidade complexa de seu novo namorado, Angela não tarda em revelar sua intenção casamenteira para George que extasiado com a larga proporção de coisas boas surgindo em sua vida – vide a promoção em seu emprego e a reciprocidade do amor da mulher mais linda e rica da cidade – vê subitamente sua felicidade ruir ao receber o anúncio da gravidez de Alice.
Logo, a única noite de transgressão perante as convenções sexuais da sociedade passa a ser o seu calvário face as iminentes ameaças de Alice em tornar pública sua prenhez.
Imbuído, então, de intenções assassinas, George leva a grávida para um passeio de barco cujo fim seria o afogamento de Alice não fosse a falta de coragem do protagonista. Todavia, ainda que não consiga praticar o crime de forma ativa, o rapaz não consegue evitar que Alice num momento de desespero fomentado por uma discussão escorregue e caia na água.
Como a morte acidental da moça lhe era cômoda, George omite qualquer socorro, o que não impedirá, entretanto, a aplicação contra ela da pena capital. Dentro deste contexto, sua família trata de garantir que o julgamento resulte na mais breve extirpação do membro pobre e marginal, como forma de não só garantir a integridade do clã como também de evitar o conhecimento da imprensa acerca do envolvimento amoroso do assassino com a menina rica, o que, inegavelmente, seria deveras constrangedor.
Valendo-se de uma fluidez dramática, capaz de fazer inveja a qualquer diretor, George Stevens leva o espectador a um passeio pela vida de George Stevens, personagem este cujo carisma de seu intérprete impede que o mesmo seja objeto de simplórias definições como bandido ou mocinho, graças ao misto de ingenuidade e de malícia que lhe é aplicado, o que deixa a audiência na corda bamba quanto a opção de torcer ou não por ele, o que, sem dúvida, é um trunfo presente em poucos filmes.

COTAÇÕES:
Clamor do Sexo - ☼☼☼☼☼             
Um Lugar ao Sol - ☼☼☼☼☼

Ficha Técnica - Clamor do Sexo
Título Original: Splendor in the Grass
Direção:Elia Kazan
Roteiro:William Inge
Elenco: Barbara Loden (Ginny Stamper)Warren Beatty (Bud Stamper)Pat Hingle (Ace Stamper)Audrey Christie (Mrs. Loomis)Natalie Wood (Wilma Dean 'Deanie' Loomis)Crystal Field (Hazel)Sandy Dennis (Kay)Gary Lockwood (Toots)Martine Bartlett (Miss Metcalf)Jan Norris (Juanita Howard)John McGovern (Doc Smiley)Joanna Roos (Mrs. Stamper)Fred Stewart (Del Loomis)Zohra Lampert (Angelina)Marla Adams (June)
Ano: 1961
Duração: 124 minutos

Curiosidades: Dennis Hopper foi considerado para o papel de Bud Stamper.


Ficha Técnica – Um Lugar ao Sol

Título Original: A Place in the Sun
Direção e Produção: George Stevens
Elenco: Ted de Corsia (Judge R.S. Oldendorff)Charles Dayton (Det. Kelly)Mike Mahoney (Motorcycle officer),Walter Sande (Art Jansen, George's Attorney)John Ridgely (Coroner),Sonny HoweJames Horne Jr. (Tom Tipton)Herbert Heyes (Charles Eastman),Paul Frees (Rev. Morrison, priest at prison)John M. Reed (Joe Parker),William B. Murphy (Mr. Whiting),Kathryn Givney (Louise Eastman),Montgomery Clift (George Eastman)Pat Combs,Marilyn Dialon (Frances Brand),Shepperd Strudwick (Anthony 'Tony' Vickers),Ian Wolfe (Dr. Wyeland),Raymond Burr (Dist. Atty. R. Frank Marlowe),Anne Revere (Hannah Eastman)Kasey Rogers (Miss Harper)Elizabeth Taylor (Angela Vickers),Shelley Winters (Alice Tripp),Pearl Miller (Miss Newton),Frieda Inescort (Mrs. Ann Vickers)
Ano: 1951
Duração: 122 minutos

Curiosidades:

Ao assistir ao filme, assim se manifestou Charles Chaplin: "É o melhor filme que assisti na vida. Registra a supremacia do cinema sobre todas as outras formas de arte". Chaplin também enviou uma carta para Montgomery Clift, manifestando a este sua admiração pelo brilhante desempenho. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Um_Lugar_ao_Sol_%28filme%29.
O filme foi vencedor de 6 Oscar, incluindo Melhor Diretor, Edição e Roteiro, sendo nomeado, ainda, nas categorias de melhor filme, melhor ator (Montgomery Clift) e melhor atriz (Shelley Winters).

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