EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 2 de junho de 2010

Bagdad Café


Esquisitices Esquálidas

Bagdad Café (EUA/Alemanha Ocidental, 1987) compõe um nicho específico de filmes cujos enredos abordam hotéis ocupados por hóspedes cheios de estranhezas. O problema é que tanta esquisitice, à exemplo da obra em comento e de outras como O Hotel de Um Milhão de Dólares, quase sempre leva a lugar nenhum – como se a anormalidade pudesse, por si só, justificar uma produção.
Além de personagens que de modo nada discreto fogem do lugar comum – o xerife, a título de exemplificação, ganha os traços de um índio – em Bagdad Café o exagero também se alia a fórmula do diretor Percy Adlon para, assim, tornar o longa-metragem ainda mais... esquisito.
Seja pelas interpretações hiperbólicas – que conseguem a proeza de transformar o estranho em caricato –, pela utilização abusada de ângulos tortos, pela deslocada inserção da música, pelo subestimado papel de Jack Palance e até mesmo pelo próprio final em aberto, tudo no filme é trabalhado em prol de um único objetivo: torná-lo diferente.
Porém, fica o questionamento: tamanha diferenciação é batalhada em função do quê?
É inegável que a obra cumpre sua meta provocativa; todavia, tal empenho se revela esquálido em virtude de um falso conteúdo que não suscita no espectador qualquer reflexão relevante.
Dentro deste contexto, é curioso o fato de Bagdad Café evoluir nos seus vinte minutos finais, quando as estranhezas são deixadas de lado em benefício de uma convencional guinada dos personagens rumo à redenção, o que demonstra que – longe de pregar-se o tradicionalismo como bandeira – opções fílmicas alienígenas não se sustentam isoladamente, devendo, portanto, serem entrelaçadas aos elementos audiovisuais de um filme e, principalmente, ao seu roteiro – o que, aliás, David Lynch faz como ninguém.

COTAÇÃO - ☼☼         

Ficha Técnica
Título Original: Out of Rosenheim
Direção: Percy Adlon
Elenco: George Aguilar (Cahuenga)CCH Pounder (Brenda)Christine Kaufmann (Debby)Monica Calhoun (Phyllis) Hans Stadlbauer (Münchgstettner)Jack Palance (Rudi Cox) Darron Flagg (Salomo) Alan S. Craig (Eric)G. Smokey Campbell (Sal)Apesanahkwat (Sheriff Arnie)Marianne Sägebrecht (Jasmin Münchgstettner)
Duração: 94 minutos

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