EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 22 de junho de 2010

Vergonha


A Sobrevivência e Suas Exigências

Em poucos anos essa menina vai ser uma mulher que pede muito pouco da vida, que nunca incomoda ninguém, nunca deixa transparecer que ela também tem tristezas, desapontamentos, sonhos que foram menosprezados. Uma mulher que vai ser como uma rocha no leito de um rio, suportando tudo sem se queixar. Uma mulher cuja generosidade, longe de ser contaminada, foi forjada pelas turbulências que se abateram sobre ela. (...) algo tão arraigado que (...) nem os talibãs conseguiram destruir. Algo tão rijo e inabalável quanto um bloco de calcário. Algo que, afinal, acabou sendo a sua ruína”.
Em A Cidade do Sol Khaled Hosseini, mundialmente conhecido por seu romance de estréia O Caçador de Pipas, narra a história de mulheres cujas vidas foram devastadas pela guerra que assola o Afeganistão desde a invasão soviética, há cerca de três décadas.
Abandonadas à própria sorte, tais figuras são obrigadas a reescrever seus destinos para, desse modo, sobreviverem dia após dia. Se por um lado suas dores e humilhações lhes ajudam a se rebelar quando da iminência da morte, por outro ângulo tais reveses não constituem elementos hábeis a corromper suas naturezas, o que para uns há de ser encarado como mera resignação, enquanto para outros pode ser visto como perseverança quanto ao simples desejo de viver - ainda que isso não implique necessariamente em otimismo quanto ao dia de amanhã.
Tal narrativa faz pensar em Vergonha (Suécia, 1968) de Ingmar Bergman, pois a partir de um fio condutor semelhante, qual seja o poder de devastação da guerra sobre o homem e suas relações sociais, o cineasta explora uma realidade mais ordinária, centrando seu foco justamente nas transformações da personalidade perante situações limite.
Neste passo, Eva (Liv Ullmann) representa a fortaleza, a mulher de opiniões e posturas racionalmente delineadas, ao passo que Jan (Max Von Sydow) é o companheiro frágil, cuja escolha pelo escapismo, no que tange a aproximação da guerra, concede-lhe ares, por vezes, patéticos.
Mas, eis que a guerra lhes bate à porta – literalmente – para, em seguida, preencher espaços antes ocupados pela própria relação amorosa do casal. Assim, aos poucos ambos vão esquecendo o sentimento que compartilhavam para, lentamente, se tornarem meros parceiros de sobrevivência.
Dentro deste contexto, para ela tal transição é imbuída de uma fraqueza e de uma fragilidade que antes lhes eram desconhecidas, enquanto nele a barbárie desperta instintos, sobretudo de violência, que lhe levam a abdicar de qualquer vergonha, convenção ou sensibilidade em favor da selvageria que o ato de sobreviver passa a exigir.
Para construir tal enredo Bergman se vale da primorosa fotografia em preto e branco de Sven Nykvist, marcada aqui pela capacidade de ora arremessar a platéia para dentro da trama, o que ocorre por meio de belíssimos closes, e de ora reposicionar o público na sua função observadora/analítica através de diálogos filmados com total ausência de contra planos.
Destarte, de nada valeriam tais recursos sem a presença de Liv Ullmann e Max Von Sydow que brilham em papeis ricos e, por isso, extremamente difíceis. A atriz expressa todo o inconformismo inicial e o desespero final de sua personagem tão somente com a força de seu olhar; nele se materializam transições e se transformam sentimentos, ao passo que o ator utiliza seu porte, sua estatura primeiro para indicar a insegurança de seu protagonista e em seguida para revelar a brutalidade que no homem eclode.
Vergonha, desta feita, é trabalho de time grande que sabe o que faz. É filme no qual todos os elementos são eficientes e dignos de aplauso. Aplaudamos, então.

Ficha Técnica
Título Original: Skammen
Direção e Roteiro: Ingmar Bergman
Produção: Lars-Owe Carlberg
Fotografia: Sven Nykvist
Elenco: Liv Ullmann (Eva), Max Von Sydow (Jan), Sigge Fürst (Filip)Gunnar Björnstrand (Jacobi)Birgitta Valberg (Mrs. Jacobi)Hans Alfredson (Lobelius)
 Duração: 103 min.

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