EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 6 de junho de 2010

Paris, Texas


O Espelho Tem Duas Faces

A cena: Quatro anos após uma violenta separação, Travis (Harry Dean Stanton) reencontra Jane (Nastassja Kinski), a mãe de seu filho, trabalhando em um clube erótico. Lá o casal dialoga em uma cabine onde ele pode vê-la, mas ela não, motivo pelo qual o homem opta por sentar-se de costas para a vidraça que o separa de Jane, para, além de igualar-se a ela no que concerne sua desvantajosa condição visual, poupar a ambos do testemunho do presente da mulher.
Ao longo da conversa Jane descobre que a voz sem face que lhe fala é a de seu ex-marido. Tocada e surpresa a personagem apaga, então, as luzes de sua cabine para, assim, rever o rosto de Travis, momento este em que o espelho que os separava passa a fundi-los num só, juntando novamente a história de uma família desfeita e agregando as razões que fizeram cada um partir em processo de fuga.
Uma vez revelado por Travis sua intenção em reaproximar a ex-mulher do filho deixado para trás, Jane vai ao encontro do garoto enquanto aquele primeiro se retira para deixar aos últimos o futuro que a ele não mais pertence graças aos erros do passado.
Entretanto, esse reencontro e essa nova separação reacendem nos personagens a esperança na vida, o que faz a tela explodir em tons verdes tanto para a partida dele quanto para o abraço da mãe e do filho.
O filme: Paris, Texas (1984, Inglaterra/França/Alemanha Ocidental) de Wim Wenders.
A conclusão: Toda a razão de Paris, Texas existir consiste na projeção da cena mencionada, eis que em torno dela todo o filme fora concebido e moldado. Desta feita, Wim Wenders constrói uma das mais tocantes sequências dramáticas do cinema; afinal, além de fazer todo o longa-metragem valer a pena por um punhado de minutos, o diretor ainda manobra com sensibilidade e equilíbrio a revelação do drama e da figura de Jane a qual, sem dúvida, pode ser apontada como uma das protagonistas mais enigmáticas e efêmeras já criadas no universo cinematográfico.

COTAÇÃO - ☼☼☼☼☼             

Ficha Técnica
Direção: Wim Wenders
Elenco: Harry Dean Stanton (Travis Henderson),Nastassja Kinski (Jane Henderson), Viva (Viva Auder) Hunter Carson (Hunter Henderson), John Lurie (Slater)Jeni Vici (Stretch) , Bernhard Wicki (Doctor Ulmer)Dean Stockwell (Walt Henderson)Socorro Valdez (Carmelita) , Sally Norvell (Nurse Bibs).
Música: Ry Cooder
Duração: 140 minutos
Curiosidades:
O ator Sam Shepard que assina o roteiro do filme e também atua no mesmo voltaria a repetir semelhante parceria com Wim Wenders na obra Estrela Solitária.
De igual forma, a parceria com Ry Cooder, que assina  a trilha sonora de Paris, Texas, seria retomada em Buena Vista Social Club.

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