EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 29 de junho de 2010

Pai e Filha


Jogo Amistoso

Preocupado com o futuro de sua filha única, pai viúvo arquiteta, com a colaboração da tia da moça, meios para casá-la e de assim desincumbi-la do dever de tomar conta dele pelo resto da vida.
Narrada dessa forma a trama de Pai e Filha pode parecer simplória, todavia, Yasujiro Ozu exercita suas temáticas e técnicas de filmagem para, aos poucos, desnudar os subtextos e dilemas familiares sugeridos pelo roteiro; afinal, qual o direito que um pai tem de afastar de si um filho em prol da felicidade deste último? E se a alegria do filho residir justamente na convivência e na proximidade para com os pais? Até que ponto é justo um filho abdicar de um futuro em razão do dever de cuidado perante os pais?
Em busca de tais respostas o cineasta japonês não se furta a impregnar de melancolia sua obra, permitindo-se até utilizar certa dose de excesso no que atine seu olhar contemplativo. Tais desajustes, entretanto, aparentam ter, na verdade, um caráter experimental que os impedem de ser caracterizados como meros atos falhos, visto que o longa-metragem, inevitavelmente, parece ser um grande treino para aquela que viria ser a obra máxima de Ozu: Era Uma Vez em Tóquio.
É claro que a delicadeza de Pai e Filha já lhe agrega considerável valor, mas, ainda assim, fica a sensação de que tanto os dramas familiares quanto o próprio desempenho do trio de protagonistas seriam mais bem explorados no segundo filme citado. De qualquer modo, não resta dúvida de que Ozu realizou um belo jogo amistoso.

COTAÇÃO - ☼☼☼
Ficha Técnica
Título Original: Banshun
Direção:Yasujiro Ozu
Elenco: Chishu Ryu (Shukichi Somiya)Toyoko Takahashi (Shige)Yôko Katsuragi (Misako)Yoshiko Tsubouchi (Kiku)Masao Mishima (Jo Onodera)Kuniko Miyake (Akiko Miwa)Jun Usami (Shuichi Hattori)Hohi Aoki (Katsuyoshi)Haruko Sugimura (Masa Taguchi)Yumeji Tsukioka (Aya Kitagawa)Setsuko Hara (Noriko Somiya)Jun Tanizaki (Seizo Hayashi)
Duração: 108 minutos
Estreia: 1948
Curiosidade: Pai e Filha fora refilmado pelo próprio Yasujiro Ozu em 1962 sob o título A Rotina Tem Seu Encanto (Sanma No Aji), sendo que o papel do pai fora novamente interpretado por Chishu Ryu, ator preferido do cineasta.

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