EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 28 de junho de 2010

Diversificação



É fato que a partir do Cinema Novo a produção cinematográfica brasileira passou a ter uma temática predominante, qual seja as agruras sertanistas. Com o novo milênio a estética da fome teve seu cenário alternado para as favelas e morros, passando a violência a assumir cores mais vivas e expressivas.
Longe de tentar afirmar que obras envolvendo os temas supracitados sejam de inferior qualidade – até porque na maioria das vezes a regra é justamente o contrário -, o que  se defende é a diversificação de enredos e de gêneros como convite a um número maior de público e como meio de solidificação da indústria.
Nos últimos anos, é claro, muitos exemplos, nesse sentido, surgiram, como é o caso de Pequeno Dicionário Amoroso, Chico Xavier e da franquia E Se Eu Fosse Você.
Dentro deste contexto, o segundo exemplo talvez não seja um excelente parâmetro por ser construído para uma platéia específica garantidora de retorno financeiro à produção.
O terceiro exemplo, por sua vez, configura o momento em que o cinema brasileiro e o público selam de vez as pazes - dado o imenso sucesso comercial da franquia – mas também marca o retorno de uma antiga discussão travada pela crítica especializada desde a época das chanchadas, qual seja o fato a predileção das grandes massas por produtos de discutível ou nenhuma qualidade.
Já o primeiro exemplo representa uma comédia romântica, dirigida por Sandra Weneck, que foge das temáticas nacionais preestabelecidas, assumindo, portanto, uma postura universal que permite à obra ser apreciada por qualquer espectador independentemente da origem geográfica do material.
Neste diapasão, Jorge Furtado é outro cineasta cuja filmografia é calcada em roteiros pouco convencionais, com tramas que dispensam uma necessária representatividade nacional.
Seu curta-metragem Ilha das Flores pode até tratar de um pedaço de chão brasileiro, porém, os problemas do local, além de não serem exclusividades tupiniquins, são mostrados com tamanho sarcasmo e ironia que a tradicional estética da fome resta rompida, de forma que o distante olhar da dor e do sofrimento acaba cedendo lugar a um riso nervoso imbuído em mea culpa, o que, por certo, fomenta no espectador um grau maior de reflexão.
Veja-se o caso, por exemplo, de Saneamento Básico – O Filme: lançando mão de um argumento altamente inovador, o longa injeta frescor tanto sobre a metalinguagem quanto sobre a abordagem de problemas sociais. Assim, estão no filme, por exemplo, a atriz chinfrim que não se furta a estrelismos, bem como diálogos afirmando que ficção é coisa que não existe, tal como monstro, fantasma e futuro.
Genial em sua concepção, o filme discorre, entre tantas coisas, sobre o uso do dinheiro público e a prevalência de suas destinações, mas o faz com tal leveza que conquista qualquer um com facilidade, demonstrando, portanto, que criatividade e talento são alternativas que se bastam no processo de afastamento das fórmulas que insistem em caracterizar a produção nacional.
Desta feita, os trabalhos de Jorge Furtado, que de escapistas nada tem, deixam suas cutucadas nas entrelinhas, sendo, assim, diversões inteligentes defendidas por artistas da novela das oito; afinal, ainda que intelectualizado o produto, estamos falando de uma indústria.

COTAÇÕES:
Pequeno Dicionário Amoroso - ☼☼☼
Ilha das Flores - ☼☼☼☼  
Saneamento Básico – O Filme - ☼☼☼☼

Ficha Técnica - Pequeno Dicionário Amoroso
Direção: Sandra Werneck
Duração: 91 minutos

Ficha Técnica - Ilha das Flores
Direção e Roteiro: Jorge Furtado
Direção de Arte: Fiapo Barth
Trilha original: Geraldo Flach
Narração: Paulo José
Estreia: 1989
Duração: 23 minutos
Principais Prêmios: Prêmio da Crítica no Festival de Gramado 1989; Urso de Prata para curta-metragem no 40° Festival de Berlim em 1990; Prêmio Especial do Júri e Melhor Filme do Júri Popular no 3° Festival de Clermont-Ferrand na França em 1991; "Blue Ribbon Award" no American Film and Video Festival em Nova Iorque em 1991; Melhor Filme no 7º No-Budget Kurzfilmfestival em Hamburgo, Alemanha em 1991.

Ficha Técnica - Saneamento Básico
Direção e Roteiro: Jorge Furtado
Estreia: 2007
Duração: 112 minutos

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