EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 21 de julho de 2010

Bom Dia


A Ocidentalização do Japão Pós-II Guerra

Dois irmãos iniciam voto de silêncio após serem proibidos pelos pais de irem assistir TV na casa dos vizinhos.
Partindo de uma premissa relativamente simples, Yasujiro Ozu reimagina através de Bom Dia (Japão, 1959) sua obra Eu Nasci Mas... (Japão, 1932); porém, como de praxe em sua filmografia, a temática, a abordagem aparentemente simplória esconde em suas entrelinhas questionamentos certeiros sobre a família e a sociedade.
O diferencial deste longa-metragem reside na inversão dos panos de fundo, pois se em obras anteriores do cineasta a questão da ocidentalização do Japão pós-II Guerra servira de cenário para a discussão de dramas familiares, em Bom Dia o inverso acontece, afinal, se para a nova geração da época o televisor representava um sonho de consumo, pare seus antecessores tal meio de comunicação implicava uma ameaça a suas cômodas tradições, sendo visto, ainda, como instrumento de manipulação das massas.
Despreocupado em tecer maiores ponderações sobre tal perspectiva, Ozu prefere se centrar no choque entre gerações causado pelo referido bem de consumo, aproveitando o contexto para investigar os motivos da incomunicabilidade humana, por meio de personagens prontos a abrir a boca para tecer julgamentos equivocados sobre seus próximos, mas incapazes de comunicar seus mais puros sentimentos.
Desta feita, a frieza nipônica é desmistificada através das fofocas e intrigas disseminadas por um grupo de mulheres, mas, em seguida é ratificada na figura do casal incapaz de expor o afeto que um sente pelo outro, preferindo, em contrapartida, comunicar-se por meio de frases feitas sobre a beleza do dia ou acerca da chuva que pode vir a cair.
Como dito, os plots de Ozu podem parecer simples mas não são, o que também não é sinônimo de complexidade, eis que não são empurrados ao espectador pela via das trucagens artificiais, sendo, na verdade, sugeridos com sutileza durante o desenvolvimento de seus trabalhos.
Por fim, já que a técnica do diretor japonês sempre aguça análises, em Bom Dia a tradicional câmera fixada a um metro do chão ganha contornos mais relevantes por se agregar com perfeição ao ponto de vista dos ótimos atores mirins protagonistas do longa-metragem – o que, aliás, inspiraria Steven Spielberg, décadas depois, durante o processo de filmagem de E.T. – O Extraterrestre (1982).

COTAÇÃO - ☼☼☼       

Ficha Técnica
Título Original: Ohayô
Direção: Yasujiro Ozu
Elenco: Chishu Ryu (Keitaro Hayashi)Tsuusai Sugawara (Kyakutsuu-san)Teruko Nagaoka (Mrs. Tomizawa)Eiko Miyoshi (Grandma Haraguchi)Haruo Tanaka (Haraguchi)Akira Oizumi ( Akira Maruyama)Eijirô Tono (Tomizawa)Sadako Sawamura (Kayoko Fukui)Toyo Takahashi (Shige Okubo)Kyouko Izumi (Midori Maruyama)Haruko Sugimura (Kikue Haraguchi)Kuniko Miyake (Tamiko)Keiji Sada (Heichiro Fukui)Yoshiko Kuga (Setsuko Arita)Toshio Shimamura (Oden-ya no Teishu)
País de Origem: Japão
Estreia: 12 de Maio de 1959
 Duração: 93 min.

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