EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 27 de julho de 2010

Freaks em Foco


Os chamados freaks, pessoas consideradas aberrações por conta de suas debilitadas constituições físicas e/ou mentais volta e meia¹ servem de argumento para produções cinematográficas. Neste sentido, duas obras, baseadas em fatos reais, destacam-se ao adotar tal temática, são elas: O Enigma de Kaspar Hauser (Alemanha, 1974) e O Homem Elefante (EUA /Reino Unido, 1980).
Não obstante a similitude dos sofrimentos vividos por tais figuras - ambos, por exemplo, passaram pela humilhação de serem expostos em circos de horrores - o elemento que tornara Kaspar Hauser e John Merrick repulsivos perante a sociedade acaba sendo o fator de diferenciação entre eles; afinal, o primeiro, apesar de não ser acometido de qualquer  deformidade estética, possuía o comportamento de um bicho, graças aos dezoitos anos de isolamento vividos em uma espécie de calabouço, ao passo que o segundo passara a ser chamado de homem elefante em virtude do aspecto monstruoso que seu corpo e principalmente seu rosto assumiram em função de uma grave e rara doença hoje diagnosticada como neurofibromatose múltipla.
De qualquer forma, muito embora ambos demonstrassem plenas capacidades de socialização, apresentando, neste passo, relevantes progressos em seus comportamentos perante aqueles que os rodeavam, haveria sempre quem os, pretensiosamente, lembrasse de que não passavam de aberrações, seres grotescos, o que acabaria por arraigar a desgraça em suas vidas e a tornar-lhes precoce a fatalidade reservada a todos.
No que tange a abordagem fílmica destes homens, enquanto Werner Herzog, diretor de Kaspar Hauser, elaborou um longa-metragem tão estranho quanto seu personagem título, David Lynch aproveitou para realizar um drama sensível ao contar a história de J. Merrick.
Kaspar Hauser, desta feita, é um exercício testemunhal no qual Herzog opta por deixar que os fatos falem por si mesmos, razão pela qual o cineasta se limita a tecer um olhar contemplativo – quase que sem música –, lançando mão do contraste entre a beleza das paisagens filmadas e a dramaticidade dos eventos que marcam a vida do protagonista.
Por sua vez, O Homem Elefante se vale de uma concepção visual clássica, no que se destacam a bela fotografia em preto-e-branco e a edição em fades. Dentro deste contexto, Lynch adota uma linearidade que, sem dúvida, representa em sua filmografia a via da exceção.
Abandonando, assim, as trucagens e simbologias complexas que em outros trabalhos desafiavam o raciocínio do espectador Lynch compreendeu que a história de seu protagonista dispensava tais artifícios, concentrando-se, portanto, na humanização daquele, o que é feito com tamanha honestidade que em momento algum se mostra como sinônimo de manipulação do público, destacando-se, ainda, neste diapasão, a colaboração de John Hurt que, mesmo escondido sob pesada maquiagem, entrega uma atuação tocante.
Por isso, O Homem Elefante logra êxito naquilo que falta a Kaspar Hauser: causar emoção, levando a platéia a sentir vergonha alheia pelo tratamento dispensado a J. Merrick, o que inevitavelmente acarreta uma bem-vinda releitura de conceitos particulares.
Se, entretanto, a intenção de Herzog não fora emocionar – talvez por receio de soar maniqueísta – mas apenas relatar, o objetivo, por certo, restou cumprido; o problema é que ao término do filme fica a sensação de que algo faltou a Kaspar Hauser. Sensibilidade? David Lynch com certeza diria que sim.
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1.    Ou, para ser mais preciso, desde 1932, ano de produção de Freaks, filme hoje considerado um clássico cult, mas que a época de lançamento fora considerado uma autêntica aberração por trazer um elenco composto por deficientes reais, o que acabou por custar a carreira do diretor Tod Browning.

COTAÇÕES:
O Enigma de Kaspar Hauser - ☼☼☼          
O Homem Elefante - ☼☼☼☼

Ficha Técnica - O Enigma de Kaspar Hauser
Título Original: Jeder für sich und Gott gegen alle
Direção e Roteiro: Werner Herzog
Elenco: Hans Musäus (Unknown Man)Franz Brumbach Wilhelm Bayer (Taunting Farmboy)Wolfgang Bauer Volker Prechtel (Hiltel the prison guard)Gloria Doer (Frau Hiltel)Marcus Weller Johannes Buzalski Helmut Döring (Little King)Walter Ladengast (Professor Daumer)Brigitte Mira (Kathe, Servant)Willy Semmelrogge (Circus director)Clemens Scheitz (Escrivão)Bruno Schlierstein (Kaspar Hauser)Michael Kroecher (Lord Stanhope)
Duração: 109 minutos

Ficha Técnica - O Homem Elefante
Título Original: Elephant Man, The
Direção: David Lynch
Roteiro: Christopher De Vore, David Lynch, Eric Bergren, Freddie Francis, Patricia Norris (Baseado em livro de Sir Frederick Treves e Ashley Montagu)
Elenco: Michael Elphick (Porteiro) Gerald Case (Lord Waddington)James Cormack (Pierce)Robert Lewis Bush (Robert Bush) Dexter Fletcher (Bytes's Boy)John Gielgud (Carr Gomm)William Morgan Sheppard (Morgan Sheppard)  Marcus Powell (Midget)Orla Pederson (Skeleton Man)Kenny Baker (Plumed Dwarf) Lesley Dunlop (Nora)Caroline Haigh (Tree)Carol Harrison (Carole Harrison)Beryl Hicks (Fairy)Wendy Hiller (Mothershead) Lydia Lisle (Merrick's Mother) Phoebe Nicholls (Merrick's Mother) Helen Ryan (Princess Alex)Lisa Scoble (Siamese Twin)Hannah Gordon (Mrs. Anne Treves) Gilda Cohen (Midget)Teresa Codling (Princess in Panto) Kathleen Byron (Lady Waddington)Anne Bancroft (Mrs. Kendal) Sir Frederick Treves (Alderman) John Standing (Dr. Fox)Nula Conwell (enfermeira Kathleen) Tony London (Young Porter)John Hurt (John Merrick)Freddie Jones (Bytes) Richard Hunter (Hodges)Anthony Hopkins (Dr. Frederick Treves)
Música: John Morris
Fotografia: Freddie Frances
Direção de Arte: Robert Cartwright
Figurino: Patricia Norris
Edição: Anne V. Coates
Estreia: 22 de Dezembro de 1980
Duração: 120 minutos
Curiosidades:
“O diretor Mel Brooks foi um dos produtores executivos de O Homem-Elefante, tendo sido o responsável pela contratação de David Lynch e pela decisão em filmar em preto e branco. Entretanto, para evitar que o público considerasse que o filme fosse um sátira pela simples presença de seu nome, Brooks pediu que não estivesse presente nos créditos do filme.
O diretor David Lynch chegou a tentar ele mesmo fazer a maquiagem do Homem-Elefante, mas desistiu após concluir que não conseguiria fazê-la de forma satisfatória.
A maquiagem do Homem-Elefante levava 12 horas para ser feita a cada vez que era aplicada em John Hurt” (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Homem_Elefante).

Um comentário:

  1. Eu conheci a comovente história de J. Merrick através de um documentário, o qual citou o filme de Lynch. Contudo, não consegui achar o filme.

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