EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 4 de julho de 2010

O Segundo Rosto

Opções e Escolhas

Ansioso por se libertar da mesmice de seu cotidiano, homem de meia idade se submete a processo de transformação que inclui o forjamento de sua morte, a reconstrução de seu corpo e face, além de um inevitável abandono da família e da vida pregressa.
Desta feita, no intuito de criar uma nova realidade para os dias vindouros do protagonista, o portfólio de uma vida artística lhe é apresentado junto com alguns elementos caricatos que lhe são comuns, leia-se boemia e sexo - destacando-se, no que tange este último, a grandiosa sequência da festa de adoração a Baco, ocasião em que doses generosas de nudez são oferecidas ao público.
Se por um lado O Segundo Rosto (EUA, 1966) traz em seu bojo um ideal libertário coerente à década de sua criação, por outro deixa claro, ainda que soe banal para muitos, que absolutamente nada é desprovido de um preço a ser pago.
No caso de Arthur Hamilton – interpretado primeiramente por John Randolph e em seguida por Rock Hudson – sua dívida é cobrada da forma que lhe é mais ingrata: através da abstração de sua faculdade de escolha, de decisão sobre seus atos e vida futura; afinal, fora justamente o poder das convenções que lhe retirara no passado a oportunidade de trabalhar por seus sonhos, moldando, assim, toda sua frustração e reclusão.
Neste sentido, ao contrário do personagem principal do longa-metragem, o diretor e produtor John Frankenheimer exercita com extrema maturidade suas opções quanto a elaboração do filme e escalação de seu elenco e equipe técnica, senão vejamos:
·      Frankenheimer exala sobriedade ao não perder tempo com maneirismos, preferindo, de forma paulatina, lançar para o espectador pistas, às vezes falsas, sobre a história contada, o que comprova, portanto, seu domínio sobre a narrativa.
·      As contratações de Jerry Goldsmith – para a composição da trilha sonora – e de James Wong Howe – para a realização do trabalho de fotografia – se mostraram cruciais ao bom desempenho da obra, isso porque o cineasta permitiu sem qualquer vaidade que o trabalho de seus colegas também brilhasse, resultando, por conseguinte, numa musicalidade de tons fúnebres aliada a um clima claustrofóbico proporcionado por uma magistral fotografia em preto e branco que não hesita em emular ares surrealistas ao se valer de imagens desfocadas e ângulos tortos.
·      Não fosse o bastante, os créditos iniciais são assinados por Saul Bass (tradicional parceiro de Hitchcock), o que, além de anunciar a qualidade visual do que está por vir, corrobora o atestado de durabilidade e qualidade da produção no que atine os efeitos do tempo.
·      Indo mais além, o casting de O Segundo Rosto revela de igual modo um curioso exercício de escolhas por parte de seu diretor e produtor, isso porque é formado por um time de atores, antes incluídos na lista negra do mccarthismo, interpretando os funcionários da  “companhia” responsável pelo renascimento do protagonista defendido por Rock Hudson, cuja escalação não é nada menos que emblemática e produtiva, visto que o ator também fora obrigado ao longo de sua carreira a lançar mão de um segundo rosto em virtude de uma homossexualidade inconcebível para os padrões hollywoodianos vigentes até então.
Pelas razões expostas, resta inconteste o atributo cult recebido por O Segundo Rosto com o passar das décadas, o que, de forma justa, serviu como reconhecimento de qualidades ignoradas e/ou esnobadas pela crítica quando da estréia do filme.

COTAÇÃO - ☼☼☼☼☼
Ficha Técnica
Título Original: Seconds
Produção: John Frankenheimer, Edward Lewis
Roteiro: Lewis John Carlino- baseado em livro de David Ely
Fotografia: James Wong Howe 
Música: Jerry Goldsmith
Duração: 107 minutos
Estreia: 05 de Outubro de 1966

Nenhum comentário:

Postar um comentário