EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 14 de agosto de 2012

À Beira do Caminho


O Sample no Cinema

 “O sample, uma espécie de Ctrl+C – Ctrl+V na música, sempre foi um recurso comum na eletrônica e no hip-hop. Hoje, músicos do pop e até do rock recorrem a ele sem nenhum constrangimento. Só neste ano, artistas e bandas como Maroon 5, Coldlplay e Bruce Springsteen compuseram seus novos discos com a ajuda de samples”¹

Originalidade e ineditismo, por certo, não são características presentes nos títulos que compõem a filmografia de Breno Silveira, afinal, Dois Filhos de Francisco (2005) não passou de um filme biográfico edificante atento a todas as regras e convenções do gênero, ao passo que Era Uma Vez... (2008) representou apenas mais uma variação da história do amor impossível – com ecos de Romeu e Julieta. Dito isso, seu novo trabalho, À Beira do Caminho (Brasil, 2012) segue o mesmo ritmo de aproveitamento de ideias alheias já vistas antes, isso porque:
- a trama do caminhoneiro solitário que se vê obrigado a dividir a boleia com um garoto soma-se a longa lista de roteiros que utilizam a premissa de parceiros de viagem forçados a ter a companhia um do outro, mas que, no fim, acabam se tornando grandes amigos;
- por seu turno, a trajetória em busca do pai da criança em muito lembra o que fora mostrado em Central do Brasil (1998), ao passo que a estratégia de integração das canções de Roberto Carlos a narrativa já havia sido posta em prática, de forma, ressalte-se, mais convincente e orgânica em outro road-movie nacional, qual seja o ótimo O Caminho das Nuvens (2003).
Para os mais exigentes esse acúmulo de referências e clichês deverá desagradar. Para quem, por outro lado, preferir encarar a obra sem falsas expectativas – pois, como outrora sugerido, trata-se de mais uma realização de um cineasta adepto do sample – saltarão aos olhos duas inegáveis qualidades que, a despeito dos deméritos elencados, salvam o longa-metragem na medida em que acabam permitindo seu correto funcionamento: a bela fotografia de Lula Carvalho e a excelente interpretação de João Miguel, cujo tom sóbrio e lacônico impede que o melodrama resvale na pieguice. Eis um ator completo que encarna, como poucos, homens que carregam o peso do mundo nas costas².
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1.     FONTE: Revista Veja. Ed. 2281. Ano 45. N° 32. São Paulo: Abril, 08.08. 2012. p.9.
2.    Neste sentido, sua atuação em Xingu (Brasil, 2012) já servira de comprovação desse talento.

FICHA TÉCNICA
Direção: Breno Silveira
Produção: Breno Silveira, Lula Buarque de Hollanda         
Roteiro: Patrícia Andrade              Fotografia: Lula Carvalho
Elenco: João Miguel, Dira Paes, Vinicius Nascimento, Ludmila Rosa, Denise Weinberg, Ângelo Antônio
Estreia: 12.08.2012                        Duração: 102 min.

Um comentário:

  1. João Miguel é um dos meus atores brasileiros favoritos, e é por causa dele que tenho tanta curiosidade em conferir esse filme.

    http://avozdocinefilo.blogspot.com.br/

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