EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Intocáveis


Um Filme Cativante

Há quem insista em comparar Intocáveis (França, 2011) com O Escafandro e a Borboleta (França/EUA, 2007); ocorre, porém, que o primeiro se comporta muito mais como um filme de amizade do que como um drama sobre um homem paralítico, razão pela qual o trabalho dos diretores Olivier Nakache e Eric Toledano revela maior sintonia com títulos como Rain Man (EUA, 1988) e Perfume de Mulher (EUA, 1992).
Neste passo, ao invés de ser explorado, o tema da deficiência física serve, na verdade, como pretexto para introduzir o que realmente interessa: a improvável, mas bem sucedida, relação amigável e profissional entre dois homens completamente diferentes no que tange suas raças, culturas e classes sociais.
Ok, o enredo não propõe a invenção da roda, mas, em se tratando de um material cuja essência já é conhecida de trabalhos como os anteriormente citados, impressiona como Intocáveis consegue envolver, cativar e ganhar a cumplicidade do espectador, mérito esse que se deve a uma dupla de protagonistas talentosa o bastante para fazer funcionar o senso de humor negríssimo que não só pontua a abordagem de assuntos delicados e sérios como também se mostra responsável pela humanização de seres habituados a falar o que vem a cabeça por mais estapafúrdio que isso possa parecer.
No que atine, em específico, o trabalho dos atores principais, vale dizer que se nas outras produções que trataram de temas parecidos o destaque em termos de interpretação era conferido a quem se dedicava ao personagem deficiente², o contrário acontece no fenômeno¹ francês, eis que, mesmo que correto seja o contido tom do trabalho de François Cluzet (um quase clone de Dustin Hoffman), quem de fato brilha e garante o êxito daquilo que era pretendido pelo roteiro é a revelação Omar Sy. Esfuziante, falastrão e, não raro, politicamente incorreto o ex-presidiário interpretado pelo ator deverá, por certo, persegui-lo pelo resto da carreira, além de entrar para a galeria dos grandes tipos que compõem o cinema francês.
Otimista e sensível, Intocáveis possui como grande mérito a simplicidade, pois, no lugar de pretender funcionar como um tratado sociológico², o longa-metragem busca apenas lembrar-nos acerca de algo aparentemente óbvio, contudo, frequentemente esquecido: ainda que nem sempre seja possível estar no topo, a vida vale sim a pena. Altos e baixos, oscilações de ritmo – como aquelas percebidas no próprio filme – são inerentes a nossa existência, daí que havendo esperança num dia melhor tudo passa a ter um sabor diferente. E é por ser imbuído desse pensamento que a produção exala o aroma e o sabor da alegria.
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1. Tomando ainda como exemplo Rain Man e Perfume de Mulher, cabe ressaltar que Dustin Hoffman e Al Pacino foram laureados com o Oscar de melhor ator por seus respectivos papeis nesses filmes.
2.“A comédia passou em abril a marca dos US$ 300 milhões, tornando-se o filme francês mais rentável da história e o maior sucesso de todos os tempos na bilheteria mundial para um filme em língua não inglesa. Ainda não acabou, pois seus direitos foram vendidos para mais de 40 países, incluindo os Estados Unidos, onde foram comprados por Harvey Weinstein. O produtor [...] já está pensando no remake. Colin Firth está cotado para o papel do aristocrata tetraplégico...” (VALETTE, Phalène de. Revolução Francesa. in: PREVIEW. Ed. 32. São Paulo: Sampa, Maio de 2012. p. 10).
3.Neste sentido, Carolina Nogueira escreve: “Há quem reclame que os personagens não saiam da esfera da caricatura, que a empatia entre os dois extremos que o filme desperta não resista a um choque de realidade. Acho que não resiste mesmo - mas isso não diminui a força (e a diversão) do filme. É cinema, não sociologia. E funciona bem à beça” (FONTE: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2011/12/01/intocaveis-419253.asp. Acesso em 22.08.12).

FICHA TÉCNICA
Direção: Olivier Nakache, Eric Toledano
Roteiro: Olivier Nakache, Eric Toledano, baseado no original de Philippe Pozzo Di Borgio
Produção: Nicolas Duval-Adassovsky, Laurent Zeitoun, Yann Zenou
Elenco: François Cluzet, Omar Sy, Anne Le Ny, Audrey Fleurot, Clotilde Mollet, Alba Gaïa Kraghede Bellugi, Cyrril Mendy, Christian Ameri
Fotografia: Mathieu Vadepied               Trilha Sonora: Ludovico Einaudi
Estreia no Brasil: 31.08.2012                 Estreia Mundial: 02.11. 2011
Duração: 112 min.

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