EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 19 de agosto de 2012

Um Evento Feliz


De Frente Para o Espelho

Obras como Os Nomes do Amor (2010) e Uma Doce Mentira (2010) tem destacado a França como referência das mais importantes no que tange a recente produção de comédias. Inteligentes, seus filmes não subestimam os espectadores na medida em que se permitem discutir assuntos sisudos sem jamais perder o bom humor.
Dentro deste contexto, mais um título se junta aos exemplos já dados, qual seja o delicioso Um Evento Feliz (2011). Dirigido por Rémi Bezançon, o longa-metragem acompanha a trajetória de mudanças instaurada no cotidiano de um casal a partir da ocorrência da primeira gravidez. Neste passo, impressiona como o roteiro logra êxito em abordar praticamente todas as emoções e circunstâncias vividas, sobretudo, pela mulher. A insegurança física e psicológica, a libido em polvorosa, o isolamento, a intolerância perante conselhos e ajudas não solicitadas, a descoberta de um novo tipo de intimidade para consigo mesma e para com a cria, o orgulho pela maternidade, a bagunça experimentada na seara estudantil/profissional, a exaustão advinda das primeiras semanas pós-parto e a vontade de fugir são encenadas com a perfeição de uma imagem refletida no espelho – sensação, aliás, que acompanha qualquer um que já tenha passado por coisas parecidas.
Ressalte-se que a figura do pai não é esquecida, sendo também mostrada de maneira tão crível quanto a da mãe. Inicialmente despreocupado, incapaz de lidar com o turbilhão de sentimentos desencadeado na companheira, ineficiente enquanto conciliador dos interesses e vontades da própria mãe e da parceira, hesitante quanto a transição do status de filho para pai, incomodado com a perda do lugar na cama e, por fim, feroz quando se trata de assumir a criação da filha, o homem, assim como a mulher recebe um tratamento corretamente humanizado, afinal, não é porque se tornaram pai e mãe que aqueles seres passarão a ser imunes a falhas e atos de egoísmo, por exemplo.
Uma vez que cada membro do casal tem sua personalidade respeitada em nome da credibilidade para com a vida real, é compreensível que o filme acabe em seu terceiro ato sendo menos alto astral, visto que fora da ficção o mesmo também acontece. Ainda, assim, porém, a ironia, o sarcasmo, o humor de bom gosto dão a impressão de estarem sempre pairando no ar, motivo pelo qual, não a toa, Um Evento Feliz, termina celebrando o recomeço ao invés do fim.

Ficha Técnica
Título Original: Un Heureux Événement
Direção:Rémi Bezançon
Produção: Genevieve Lemal           Roteiro:Eliette Abecassis, Rémi Bezançon,
Elenco:Amélie Glenn (Vendeuse Maman à Tous Prix)Anaïs Croze (Daphné)Daphné Bürki (Katia)Dominique Baeyens (Mme Tordjmann) Gabrielle Lazure (Édith)Gérard Lubin (Docteur Jonathan Malle)Josiane Balasko (Claire)Lannick Gautry (Camille Rose)Louis-Do de Lencquesaing (Jean-François Truffard)Louise Bourgoin (Barbara Dray)Michel Nabokoff (M. Tordjman)Myriem Akeddiou (Infirmière maternité) Patrick Spadrille (Daniel)Pio Marmaï (Nicolas Malle)Thierry Frémont (Tony)
Estreia no Brasil: 17.08.12              Duração: 107 min.

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