EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 28 de agosto de 2012

O Monge


Mar de Referências

                   O Monge (França/Espanha, 2011) tem um jeitão de thriller hollywoodiano embora não abdique da perfumaria europeia característica de sua nacionalidade. Neste passo, tal aroma se mostra perceptível, por exemplo, nos cortes que fechando em círculo a lente da câmera emulam um recurso comumente utilizado a época do cinema mudo, principalmente dentro da estética expressionista de fotografia com altos contrastes entre claro e escuro.
                     Não a toa a trama do religioso que tem suas crenças testadas e aniquiladas por Lúcifer em muito se relaciona com um universo recorrente no expressionismo alemão, qual seja o da literatura romântico-fantástica que se debruçava sobre experiências irrealistas marcadas pelas jornadas de poder de seres destituídos de bondade, cujos desdobramentos demoníacos lhes garantiam a transição entre várias identidades e/ou corpos conforme a necessidade de suas obsessões malévolas e de seus objetivos violentos¹.
                    As referências, ressalte-se, não param por aí, visto que:
o pequeno trecho da freira que tem um ‘desvio de conduta’ drasticamente punido remete a personagem Suzanne do filme A Religiosa (França, 1966) - adaptação da obra do iluminista Denis Diderot comandada por Jacques Rivette;
o cerne do enredo, qual seja o processo que torna corrompida a natureza e fé do monge lembra por demais os vários percalços e dramas experimentados por Viridiana no filme homônimo de Luis Buñuel rodado na Espanha em 1961².
          Em meio a este cenário, cabe frisar que a produção em análise é, na verdade, a adaptação cinematográfica de um romance gótico, publicado em 1796 por Matthew G. Lewis, cujos elementos e reviravoltas já haviam tanto sido trabalhados antes quanto retrabalhados posteriormente em obras literárias das mais diversas, o que, por certo, justifica o quê de previsibilidade que as vezes paira no ar, característica essa que, ao invés de ser encarada como demérito do longa-metragem, há de ser contextualizada com base nas referências suscitadas para que, desta feita, prevaleça na memória a toada elegante, misteriosa e sensual do trabalho do diretor Dominik Moll.
            Ante o exposto, O Monge merece ser compreendido como um eficiente entretenimento para adultos, o que, convenhamos, é um relevante ponto positivo, considerando que, com raras exceções, esse é um filão cada vez mais esquecido pela indústria cinematográfica. Destaque-se, por fim, o elenco composto por Vincent Cassel, em mais uma atuação irretocável, e Déborah François interpretando o tipo ambíguo e sedutor que tão bem lhe cai desde o ótimo Ao Lado da Pianista (França, 2006).
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1. Neste sentido, se destacam, a título de exemplo, obras como As Mãos de Orlac (1924) suspense dirigido por Robert Wiene e Fausto (1926) de F.W.Murnau.
2.  Leia mais sobre Viridiana e A Religiosa em http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/10/viridiana-religiosa.html.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Le Moine
Direção: Dominik Moll
Produção: Michel Saint-Jean
Roteiro: Dominik Moll, Anne-Louise Trividic
Elenco: Vincent Cassel, Déborah François, Joséphine Japy, Sergi López, Catherine Mouchet, Jordi Dauder, Geraldine Chaplin, Roxane Duran, Frédéric Noaille, Javivi, Martine Vandeville
Fotografia: Patrick Blossier
Trilha Sonora: Alberto Iglesias
Estreia Mundial: 11.07.2011
Estreia no Brasil: 07.09.12
Duração: 101 min.

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