EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 29 de abril de 2010

Dersu Uzala



Exercício de Sensibilidade


Durante expedição cartográfica sobre os vastos campos siberianos, oficial russo encontra em seu caminho Dersu Uzala, um senhor de idade avançada, morador da floresta, que irá, a partir de então, servir de guia para o capitão e seu grupo.
Com sua estatura diminuta, sua velhice e humildade Dersu suplanta toda a arrogância e ignorância dos homens da cidade por meio da força de seu conhecimento empírico e da nobreza de seu caráter, o que leva, em seguida, ao início de uma grande amizade entre ele e o chefe do destacamento militar. Baseados, então, na confiança e respeito mútuos esses dois homens de origens e meios tão diversos enfrentarão e vencerão juntos os mais diversos obstáculos oriundos tanto de fenômenos da natureza quanto da ação humana. Porém, a aproximação da morte revelar-se-á como o inimigo mais difícil de ser combatido, ocasião em que prevalecerá uma vez mais o respeito à natureza, dessa vez humana, face a chegada do momento em que cada um terá de seguir seu próprio caminho - ainda que isso signifique um adeus definitivo.
Inspirado nos diários de Vladimir Arseniev, o enredo de Dersu Uzala pode, a primeira vista, parecer um fiapo de história, mas, nas mãos de Akira Kurosawa se transforma num poético olhar sobre a amizade e sobre o dever de subserviência do homem perante o meio ambiente. Caminhando continuamente sobre os trilhos de temáticas que se harmonizam, o cineasta japonês apresenta sem qualquer pressa - e por meio da utilização de diversos planos gerais - toda a imponência da natureza perante a pequenez humana, bem como a solidez dos laços fraternais firmados pelos protagonistas, o que torna seu trabalho um cativante exercício de sensibilidade.
 Não fosse o bastante o primor de sua narrativa, o filme há de, também, ser necessariamente lembrado pela atuação de Maksin Munzuk que, na pele de Dersu, desaparece sem deixar à mostra qualquer vestígio de técnica, numa das raras vezes em que o ator deixa de interpretar para simplesmente ser e se confundir com o personagem.
Filmado em 1974, isto é, durante os espinhosos anos da Guerra Fria, Dersu Uzala é uma produção soviética, baseada em literatura de semelhante nacionalidade, fato esse que, entretanto, não impediu a obra de ser laureada em todos os cantos do planeta, o que inclui, principalmente, os Estados Unidos, local onde foi saudada com o Oscar de melhor filme estrangeiro. Desta feita, graças ao talento e ao discurso pacifista de seu diretor, o longa-metragem revelou a capacidade da arte transpor barreiras políticas – além, é claro, de representar a reabilitação pessoal e profissional do mestre Kurosawa após a má recepção de Dodeskáden, sua obra imediatamente anterior.

COTAÇÃO - ۞۞۞۞۞

Ficha Técnica 
Direção: Akira Kurosawa
Duração: 141 minutos

2 comentários:

  1. Kurosawa é um mestre, e em diversos tipos de enredo; antes de conhecê-lo de fato (ou seja, quando já ouvira falar dele, mas ainda não havia assistido nenhuma de suas obras), pensei que ele se limitava a filmes sobre samurais; este, embora excelentes, são "apenas" parte de sua versatilidade; o citado "Dodeskaden" é ótimo e me surpreendeu bastante por ter sido seu primeiro filme passado em ambiente urbano contemporâneo que assisti.
    "Dersu usala" consegue ser ainda mais encantador e peculiar dentro da filmografia do cineasta japonês. De fato, obra-prima e um de seus melhores filmes.

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  2. Fiquei realmente impressionado com essa obra. Não esperava ficar tão vidrado. Ainda mais como admirador de histórias que enfatizam a relação do homem com a natureza, e sua tentativa ínfima de vencê-la. Indo além disso, o personagem de Dersu consegue entender e interagir com ela, tornando-se quase uma resolução simbiótica, onde ambos são beneficiados. Sem contar aquela fotografia de cair o queixo. Surpreendente!

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