EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 4 de abril de 2010

Alexander Névsky


Técnicas Atemporais

Pouco antes do advento da II Guerra Mundial e em meio a crescente ameaça de invasão por parte da Alemanha nazista de Hitler, o governo soviético, na figura de seu ditador Joseph Stalin, conclamou, outra vez, Sergei Eisenstein a criar uma obra cinematográfica marcada, como suas anteriores, por forte apelo popular e nacionalista.
Em alusão ao período histórico vivido, Eisenstein filmou a história do príncipe Alexander Névsky, responsável, durante o século XVIII, pelo comando das forças camponesas na batalha contra os invasores germânicos que - assim como aconteceria séculos depois em Stalingrado - foram derrotados e expulsos das terras russas.
Alexander Névsky, neste sentido, sintetiza como o patrocínio estatal na carreira de S. Eisenstein colaborou tanto para o seu ápice (como no caso de O Encouraçado Potenkim) quanto para o seu declínio (vide a censura imposta pelo governo sobre Ivan, o Terrível, o que impediu durante anos a finalização da obra), eis que a produção teve seu lançamento nos cinemas prejudicado em virtude da assinatura, em 1939, do tratado de não-agressão firmado entre Alemanha e União Soviética, de forma que sua exibição só fora ocorrer em todo o território soviético no ano de 1941, quando Hitler, em descumprimento aos termos do acordo, invadiu a U.R.S.S.
Numa análise da durabilidade ideológica da obra enquanto instrumento do cinema político soviético, não há como deixar de reconhecer que o filme se tornou deveras datado, eis que seu ufanismo exacerbado acaba por contrastar sobremaneira com guerras como as atuais cujos heróis e vilões são de tão difícil distinção.
Entretanto, nem só de ideologia nacionalista era composto o cinema de Eisenstein, tanto que atinda hoje as inovações técnicas que incorporou à linguagem cinematográfica são reverenciadas. Neste diapasão, o cineasta aproveitou o fato da obra em comento ser seu primeiro trabalho sonorizado para – de uma forma incomum para a época – fazer amplo uso da trilha sonora com a sincronização de sons e imagens.
                      A montagem, por sua vez, recebeu, como de praxe, uma dedicação especial do diretor que, como em produções anteriores, manejou abundantes fades e cortes secos alternadores de planos gerais, médios e closes, garantindo ao filme, assim, um maior dinamismo de seu ritmo.
                     Dentro deste contexto, todo o frescor das técnicas de Eisenstein desemboca, no caso de Alexander Névsky, na longa cena da batalha travada entre russos e alemães, momento esse em que é impossível deixar de perceber como a obra do cineasta serve mesmo hoje de referência para produções atuais; afinal, como não lembrar, por exemplo, de 300 (Zack Snyder, 2007) ao assistir esse filme de 1938?
                     É a arte em estado bruto de um criador cujas técnicas ultrapassam barreiras temporais.

COTAÇÃO:
☼☼☼☼

Ficha Técnica
Duração: 112 minutos

Nenhum comentário:

Postar um comentário