EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 23 de abril de 2010

Harry e Sally - Feitos Um Para o Outro


Reunião de Talentos

Se Woody Allen optasse um dia por dirigir uma comédia romântica despida das altas doses de neurose mostradas em obras como Annie Hall e Manhattan, esse filme seria Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro (When Harry Met Sally, EUA, 1988).
As diversas caminhadas pelas ruas de Nova York regadas por deliciosas discussões comportamentais, a insegurança das personagens, as referências culturais e a urgência da declaração final de amor são elementos que se igualam àqueles manejados pelo cineasta nova-iorquino; porém, as semelhanças param por aí, eis que na obra sob análise estes recursos são conduzidos sob a ótica de um outro casal diverso (mas nem tanto) àquele do título do filme, qual seja o diretor Rob Reiner e a roteirista Nora Ephron os quais, lançando mão de suas experiências particulares, puseram nas telas uma história cheia de frescor e charme sobre encontros e desencontros que afastam mas também aproximam as vidas de homens e mulheres.
Trata-se, então, de uma reunião de talentos cujas carreiras, até então, não haviam se solidificado, senão vejamos:
  • Em Harry e Sally Rob Reiner revela sua habilidade tanto na condução do elenco quanto no manuseio de recursos técnicos – valendo, neste sentido, destacar a inspirada montagem pontuada por depoimentos que tangenciam o enredo do filme, o que, de forma muito despretensiosa, acabou por criar padrões ao gênero que influenciariam diversas produções posteriores como, por exemplo, o recente (500) Dias Com Ela – numa época em que seu nome ainda não era o sinônimo de sucesso de público e de crítica que viria se tornar a partir desta e de produções posteriores do porte de Louca Obsessão (Misery, EUA) e Questão de Honra (A Few Good Men, EUA).
  •  Nora Ephron ainda não havia estreado no ofício da direção cinematográfica, o que após ocorrido geraria uma das mais belas homenagens ao grandes romances do cinema chamada Sintonia de Amor.
  • Também antes de passar a ocupar a cadeira de diretor em filmes como A Família Adams e Homens de Preto, Barry Sonnenfeld fora encarregado da fotografia de When Harry Met Sally, ocasião na qual realizou um trabalho capaz de extrair com sofisticação a beleza de cada uma das estações do ano que pontuam os anos de convivência do casal que dá nomeia o filme.
  • Na trilha sonora um até então desconhecido Harry Connick Jr. empresta sua voz para a interpretação de antigas baladas americanas, numa colaboração que serviu de pontapé inicial para o restante de sua carreira enquanto cantor e ator.
  • Billy Crystal obteve o êxito neste filme de dosar seus conhecidos excessos, compensando-os com tocantes doses de sensibilidade, o que, numa química perfeita, não lhe sobrepôs nem lhe inferiorizou perante Meg Ryan, cuja desenvoltura na defesa de sua primeira protagonista lhe valeu através da famosa tomada do orgasmo encenado o principal e melhor momento de sua filmografia.
Com base na feliz junção desses talentos, Harry e Sally se firmou, portanto, como um sincero e carinhoso retrato acerca das diferenças entre os sexos, bem como sobre suas incontestáveis semelhanças quando o assunto é amor. Receios e inseguranças, no fim das contas, revelam-se comuns a todos, daí a razão de, após tantas idas e vindas, ser inevitável torcer pelo final feliz das personagens.
Em tempos de cinismo como os de hoje, é sempre um bálsamo perceber o sorriso no rosto que o otimismo nos proporciona. Pena que logo algo surja para, passados alguns minutos, dissipar essa sensação...
COTAÇÃO - ☼☼☼☼   
         

Ficha Técnica

Direção:  Rob Reiner
Roteiro: Nora Ephron
Fotografia: Barry Sonnenfeld
Elenco: Billy Crystal, Meg Ryan, Carrie Fisher, Bruno Kirby
Duração: 95 minutos

Nenhum comentário:

Postar um comentário