EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 3 de abril de 2010

O Livro de Eli

Western Pós-apocalíptico
Num futuro devastado pela guerra, tendo em mãos o livro que representará o restabelecimento da sociedade e, quiçá, da humanidade, Eli (Denzel Washington) trava uma jornada particular de redenção na qual terá de enfrentar diversos obstáculos criados por mercenários também interessados no livro.
Com referências que vão de Mad Max (George Miller, 1979) a Fahrenheit 451 (François Truffaut, 1966), O Livro de Eli (The Book of Eli, 2010) aposta como fator diferencial em sua fotografia, marcada por tons ora sépia ora acinzentados que formam, em conseqüência, uma paleta de cores por vezes próxima ao preto e branco.
E é com base nesse universo quase monocromático que os irmãos Hugues, diretores do filme, imprimem propositalmente um clima de western à trama para, desse modo, melhor retratar a regressão do comportamento humano em tempos de pós-guerra, pois, no caso da obra em tela, o canibalismo se tornou prática rotineira, enquanto o individualismo mais do que nunca virou a regra[1].
Neste contexto, é de se lamentar que a produção não ouse se levar mais a sério – como fez com êxito, por exemplo, Filhos da Esperança, de Alfonso Cuarón (Children of Men, 2006) – preferindo, assim, firmar-se como uma segura e rentável diversão escapista que apela, neste sentido, à fórmulas e clichês do gênero como:
·         Eli é desnecessariamente pintado como uma espécie de ronin[2] indestrutível;
·         o roteiro não perde tempo em lançar mão da velha tática do parceiro-indesejado-de viagem, o que, num filme de duplos protagonistas, se mostra como artimanha dos estúdios para revelar novos atores que, por sua vez, aproveitam as escadas erguidas por seus consagrados parceiros de cena[3].
Embora tais clichês não comprometam em seu todo o resultado final da produção, - eis que não há como negar que Denzel Washington e Mila Kunis interpretam com facilidade seus papéis – fica, ainda, a sensação de que o filme poderia ir além do espetáculo visual ao qual se propõe, mergulhando fundo em questões filosóficas e/ou existencialistas que, se abordadas de forma inteligente pelo roteiro, podem ser plenamente consumidas pelo grande público.
Quem sabe numa próxima oportunidade com Filhos da Esperança 2 essa frustração seja vencida...
COTAÇÃO: ¤¤¤

[1] Tanto que para não ter sua viagem prejudicada, o anti-herói Eli se permite em determinado momento a assistir passivamente um estupro seguido de assassinato.
[2] Na condição de samurais sem um senhor, os ronin tornaram-se temidos por sua grande habilidade em combate e por sua independência ao código samurai.

[3] No caso deste filme foram escalados os atores Denzel Washington e Mila Kunis, todavia, como já dito, diversas outras obras também já aderiram a esse mote, podendo ser citado dentre os mais recentes Eu Sou a Lenda (I Am Legend, 2007), cuja dupla central fora formada por Will Smith e Alice Braga.

 

 

Ficha Técnica
Roteiro: Gary Whitta
Duração: 118 minutos

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