EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 2 de abril de 2010

FESTIM DIABÓLICO




Na Contra-mão
 
Fato 1: Recentemente deparei-me com o seguinte comentário: “aos poucos, os grandes cineastas que se mantém produzindo se retiram para um universo próprio, uma cápsula onde convivem com seus mitos e métodos. Seus filmes forçosamente tem de ser compreendidos dentro de sua obra”.[1]
Fato 2: Sempre julguei-me andar na contra-mão naquilo que atine a obra de Alfred Hitchcock, eis que, enquanto filmes como Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958), Janela Indiscreta (Rear Window, 1954) e Festim Diabólico (Rope, 1948) são venerados por qualquer cinéfilo, minha lista de favoritos é composta por títulos menos pomposos e um tanto quanto menos badalados, tais como: Os Pássaros (The Birds, 1963), Marnie – Confissões de uma Ladra (Marnie, 1964) e O Terceiro Tiro (The Trouble With Harry, 1955).
Junção dos Fatos: Longe de representar qualquer demérito, dada a similitude de gêneros nos quais transitou, Hitchcock inevitavelmente passa a ter seus filmes analisados dentro do conjunto de técnicas e estilos manejados ao longo de sua carreira.
Neste sentido, a tensão quase que tangível retratada em produções como Psicose (Psycho,1960) e Os Pássaros me faz falta no exemplo específico de Festim Diabólico, afinal, a história do casal homossexual que assassina um homem por mero prazer minutos antes do início de uma festa - e, ato contínuo, esconde o cadáver sob a bancada onde o jantar será servido – poderia suscitar a agonia claustrofóbica mostrada em obras posteriores do diretor.
Ok, reconheço que talvez para este filme Hitchcock estivesse mais interessado em dissecar o aspecto ideológico do comportamento e caráter de personagens adeptos a teoria do homem superior, hipótese essa em que a trama do crime – bem como a revelação de seus autores - seria apenas o mote necessário à abertura de questões filosóficas e/ou existencialistas.
Admito, também, que, em se tratando de uma obra filmada em “tempo real”, dada a continuidade de seus planos seqüência, Hitchcock demonstra pleno domínio sobre sua arte; contudo, ainda assim fica a impressão de que o distanciamento desta para outras produções do diretor acaba por se revelar desnecessário, já que o cineasta ao longo de sua carreira provou a todos sua capacidade de entreter com inteligência.


[1] Alex Antunes in Movie n° 06. São Paulo: Tambor, Março de 2010. p. 48.

COTAÇÃO: ***

Ficha Técnica

Título Original: Rope
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: James Stewart (Rupert Cadell), Farley Granger (Phillip Morgan), Douglas Dick (Kenneth Lawrence), Edith Evanson (Mrs. Wilson), John Dall (Brandon Shaw), Constance Collier (Mrs. Atwater), Joan Chandler (Janet Walker), Dick Hogan (David Kentley)
Duração: 85 minutos
















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