O Terceiro Tiro


Um Cadáver Alcoviteiro
Paisagem outonal, pássaros cantando, um disparo, um cadáver encontrado. Mas, afinal o que terá acontecido a Harry (o falecido)? Para descobrir que tal haver várias pessoas se incriminando ao mesmo tempo? Enterrar e desenterrar o corpo várias vezes tornaria o enigma mais fácil? Quem sabe dar um banho no defunto não resolva todos os problemas?
Partindo dessas premissas um tanto quanto absurdas, Alfred Hitchcock realiza o grande trabalho de diferenciação de sua carreira com O Terceiro Tiro (The Trouble With Harry, 1962). Ao invés do suspense e/ou do drama psicológicos que nortearam sua carreira, o cineasta realiza, dessa vez, uma deliciosa comédia de humor negro recheada de diálogos sarcásticos e politicamente incorretos.
Através da investigação sobre a morte de Harry, Hitchcock traça um nada enfadonho panorama comportamental sobre o homem, eis que para os vivos pouco importa a condição de morto daquele homem, mas sim as implicações negativas ou não que seu falecimento pode acarretar – afinal, dentre tantas coisas, o cadáver serve até mesmo para unir corações solitários...
A elegância com que Hitchcock conta a história também é a mesma com que dirige aspectos técnicos do filme, tais como a fotografia, com a qual aproveita para explorar em ângulos bastante peculiares toda a beleza da natureza que compõe o cenário da morte de Harry.
O elenco inspiradíssimo, por sua vez, defende com extrema naturalidade e ironia as ambigüidades de cada personagem, valendo, neste contexto, destacar a presença de Shirley MacLaine que, em início de carreira e no auge de sua beleza, imprime o tom misterioso e também divertido que o papel pedia.
Talvez por ser um filme estranho ao restante da obra de Hitchcock, O Terceiro Tiro se revela como seu trabalho menos estudado e menos conhecido por novas gerações. Contudo, é justamente por conta do talento com que esse afastamento é conduzido que a produção merece o devido status de imprescindibilidade.

COTAÇÃO: ****

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