EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 15 de abril de 2010

Nome Próprio



A minha dor em eterna exposição

A letra: “Ainda sinto por dentro toda dor dessa ferida/Mas o pior é pensar que isso um dia vai cicatrizar/Eu queria manter cada corte em carne viva/A minha dor em eterna exposição/E sair nos jornais e na televisão/Só pra te enlouquecer até você me pedir perdão”.
A música: 50 Receitas de Roberto Frejat e Leoni.
                       De forma desproposital, Frejat e Leoni - expoentes do movimento BRock dos anos 80 - revelam em versos contemporâneos aspectos atinentes as diferenças comportamentais de gerações que se sucedem. Enquanto para eles a concretização máxima da exposição de uma dor se daria, por exemplo, através de transmissão televisiva ou publicidade jornalística, os adolescentes e recém-adultos de hoje dispensam meios de tão difícil acesso para dar manchete a suas neuroses e problemas íntimos.
O motivo: as múltiplas redes sociais espalhadas pela Internet. Orkut, facebook, twitter, messenger, fotologs e blogs se mostram, assim, como ferramentas práticas o suficiente para a apresentação de angústias próprias e alheias.
Desse modo, muitos passaram a se contentar e a enxergar a mera exposição virtual de seus sentimentos e de seus corpos como verdadeira solução para eventuais ou habituais problemas. A família, o sexo, o trabalho, o amor, tudo agora pode e merece ser objeto de domínio público, num processo de letargia aliciador tanto de quem produz quanto de quem consume, eis que os eventos mais banais do dia-a-dia são capazes de sair do plano da privacidade para, ato contínuo, despertar um inútil interesse em quem quer que seja.
Ocorre que, por certo, o cotidiano de cada um é marcado por minutos, horas e até dias caracterizados por um vazio, por uma ausência de novidades, de tragédias e de felicidades. Por isso, na falta do que ser exposto, apela-se ao nada em detrimento do raciocínio e do pensamento.
Nome Próprio (Brasil, 2008) tateia o assunto ao contar a história da blogueira Camila (alter-ego da escritora gaúcha Clarah Averbuck), uma mulher na faixa etária dos vinte anos que se porta como verdadeira bomba-relógio em seu constante flerte com a decadência.
Em resposta a sua inércia quanto a busca de soluções garantidoras de uma maior qualidade de vida, Camila aplaca todo e qualquer mal que lhe aflige em urgentes postagens de blog que não aguardam crises de choro nem de vômito.
Neste contexto, rompimentos de relacionamentos, trocas de farpas e demais desabafos virtuais passam a ocupar a escrita da protagonista e a estimular sua sede pelo declínio, eis que, em seu pensar, o livro que tanto almeja escrever requer para sua narrativa a manutenção de sua vida em estado de aceleração máxima ao invés da sustentação de uma velocidade de cruzeiro tediosa.
Captando esse espírito intrépido e ao mesmo tempo melancólico de sua personagem, Leandra Leal entrega uma atuação visceral, como poucas vezes visto no cinema nacional, deixando de lado qualquer pudor ou inibição capazes de limitar a personificação das nuances de seu papel.
Por sua vez, Murilo Salles, diretor da produção, faz uso de uma fotografia intrusa capaz de retirar o espectador de sua zona de conforto para jogá-lo - através da captação de closes e de imagens em primeiro plano - de encontro a crueza que permeia as cenas do filme.
                       Assim, apesar de situado tão perto dos personagens, o público fica, de igual forma, afastado dos mesmos, dado o exercício de neutralidade nitidamente trabalhado pelo cineasta supracitado; afinal, su
a perícia na condução da platéia não é atrelada a qualquer insinuação opinativa, ficando para a audiência, desta feita, toda e qualquer emissão de juízo de valor acerca do que é apresentado, o que – mesmo na presença de uma atriz em estado de graça e da perspicaz utilização de recursos técnicos e cenográficos – não impede o despertar de uma contraditória e incômoda falta de empatia pela protagonista da trama, dada a questionabilidade de seu temperamento perante a ausência de motivos concretos para atos que, de tão extremos, são incapazes de serem justificados apenas por seu abstrato anseio de produção literária.
                      Eis uma obra de corpo escultural, mas desprovida de carisma. Um filme imperfeito como Camila, as redes sociais, as gerações e a vida também são.

COTAÇÃO: * * *

Ficha Técnica
Direção: Murilo Salles
Elenco: Leandra Leal (Camila)Luciana Brites (Aurora)Paulo Vasconcelos (Charles) Gustavo Machado (Daniel)Munir Kanaan (Márcio)Ricardo Garcia (Rodrigo) Alex Disdier (Henri) David Cejkinski (Guilherme)Juliano Cazarré (Felipe) Frank Borges (Leo)Martha Nowill (Mari)
Estreia: 18 de Julho de 2008
Duração: 120 minutos

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